por Fernando Lara (*)

Vista aérea de Seoul, na Coréia, com destaque para a pequena ilha situada no  rio Han, onde será construído o Performing Arts Center. Fonte: google earth.

Agradecendo ao convite do Fabiano Sobreira relato aqui minha experiência como jurado do concurso internacional para o Performing Arts Center em Seoul, Coréia do Sul, ocorrido na última semana de fevereiro naquela cidade.

O SPAC (Seoul Performing Arts Center) será um complexo de três auditórios sendo uma ópera para 1500 expectadores e toda a área de ensaio e montagem de palco, um teatro de orquestra para 1900 ouvintes e um espaço menor de música de câmara para 400 pessoas. Além dos três auditórios o programa prevê salas de ensaio, montagem, administração e apoio num total de 43.000 metros quadrados.  A ser localizado numa ilha no meio do rio Han (ver foto aérea) o complexo do SPAC se coloca bem diretamente sobre o principal eixo simbólico da cidade, a histórica ligação norte-sul que liga o palácio imperial em Seoul ao resto da península. A ilha, artificialmente construída nos anos 20, serve de apoio à primeira ponte sobre o rio Han e sendo basicamente um banco de areia serviu como praia fluvial para os coreanos até que a guerra (1953-56) a transformou em área militarmente estratégica e expulsou de lá qualquer possibilidade de uso popular. O complexo de auditórios do SPAC alem de servir como símbolo da cidade de Seoul no século 21 e porta de entrada da parte norte da cidade tem a expectativa de recuperar a ilha para o público.

O projeto tem uma história complexa e um pouco conturbada, o que não é de todo incomum em se tratando de concursos de arquitetura com tais dimensões simbólicas e orçamentárias. Um concurso de idéias, numa primeira etapa aberto a todos, foi realizado em 2005. Cinco projetos foram selecionados para uma segunda etapa e o vencedor foi o francês Jean Nouvel, em 2006. Um ano depois de selecionado Nouvel abandonou o projeto,  muito provavelmente por questões orçamentárias. Fontes ligadas a prefeitura de Seoul afirmaram que a desavença se deu em torno dos honorários do arquiteto. Outros arquitetos coreanos me disseram que Nouvel várias vezes reclamou que os recursos reservados para a obra eram insuficientes para cobrir o programa exigido (nenhuma novidade para quem se mete a fazer concursos públicos de arquitetura no Brasil), e acabou por desistir.  Em 2008 um outro concurso foi montado, desta vez fechado. Foram convidados 6 arquitetos, dois premiados na edição anterior – Anna Lundstrom da Suécia e Jung gon Kim da Coréia do Sul – mais Paul Andreu da França (autor da ópera de Pequim), Thom Mayne dos EUA (2º. Colocado)  e os coreanos Sang leem Lee (3º. Colocado), e o vencedor:  Seung Hong Park.

Para o júri foram chamados este brasileiro que lhes escreve, o indiano Raj Rawal, os alemães Rainer Schmidt e Michael Trieb e os sul-coreanos  Byung Yoon Kim,  Jae Ho Shim e Kun Chang Yi (este último presidente do Instituto de Arquitetos da Coréia do Sul). Os trabalhos do júri começaram com um jantar oferecido pelo prefeito de Seoul onde só se falou da importância simbólica do projeto para a cidade, uma responsabilidade enorme e até um pouco assustadora para mim. No dia seguinte visita ao terreno pela manhã e apresentações dos arquitetos (30 min cada) a tarde.  Me abstenho de comentar em detalhe as apresentações dos arquitetos para evitar tornar público meus juízos pessoais quando o que interessa é a transparência da posição do júri como um todo. Mas vale dizer que teve de tudo, desde apresentações extremamente bem montadas e cronométricamente ensaiadas a arquiteto dizendo palavrão quando o power-point resolveu não colaborar.

O dia foi longo porque depois de quase 4 horas de apresentações tivemos uma dificultosa discussão sobre os critérios que deveriam nortear a escolha e a hierarquia destes. No final um pedido do arquiteto consultor que me pareceu bem interessante. Ele pediu aos membros coreanos do júri que prestassem redobrada atenção aos argumentos dos membros estrangeiros porque nós teríamos já de saída um grau maior de isenção por não conhecer os meandros da política local e seus desdobramentos na cena arquitetônica.

Tal observação acabou sendo de certa forma profética no dia seguinte. A medida em que analisávamos os trabalhos e prosseguíamos com o processo gradual de eliminação, os colegas sul-coreanos pareciam ter mais dificuldade em separar o trabalho ali exposto das trajetórias pessoais dos arquitetos locais. Enquanto os quatro membros estrangeiros do júri foram aos poucos convergindo para uma unanimidade (e quanto mais discutíamos mais certos ficávamos de que o projeto X era melhor que os outros), os três jurados sul-coreanos traziam para a conversa, inevitavelmente, informações e juízos que estavam muito além das pranchas, dos cadernos e das apresentações do dia anterior.

Isso me faz pensar na dinâmica própria dos concursos de arquitetura. Uma vez que os projetos deixam de ser anônimos (isso quase sempre acontece na segunda fase quando ocorre ou em concursos fechados) a trajetória pregressa dos arquitetos passa a fazer parte do julgamento tanto quanto as imagens e informações ali dispostas. Por não saber quase nada da carreira de quatro dos concorrentes (Thom Mayne claro todos conheciam e em menor grau Paul Andreu), os jurados internacionais se ativeram ao que estava ali graficamente apresentado.  Enquanto isso os jurados sul-coreanos além de discordarem entre si baseavam muitas de suas observações em fatos externos tipo:  “ele tem uma boa equipe de engenheiros, vai resolver esta estrutura com facilidade”.

Na medida em que o juri caminhava para uma unanimidade esses fatos externos foram sendo descartados (eu acho que corretamente) e as decisões, ainda que intensamente debatidas, foram sendo tomadas com base no que estava documentado ali naquela sala.

Mas dias depois do julgamento eu confesso que fiquei no mínimo incomodado. E se for mesmo verdade que o arquiteto Y poderia ter melhorado a circulação ou que o arquiteto X tem um histórico de abandonar as questões ambientais em detrimento da forma? Num concurso em que se sabe quem são os autores de cada projeto, como ignorar a trajetória anterior dos concorrentes. Será que o fato de conhecer a obra de Thom Mayne muito mais que a dos outros concorrentes interferiu na minha análise?

Um outro aspecto digno de nota diz respeito a uma certa diferença geracional que se revelou marcante durante os trabalhos do júri. Um dos projetos não premiados tinha como envelope externo uma caixa absolutamente ortogonal mas feita de tubos de alumínio pivotantes que adotariam formas diversas nas faces longitudinais laterais de acordo com o tipo de espetáculo da semana ou mesmo do dia. Os membros mais jovens do júri nos quais eu me coloco se mostraram muito mais favoráveis a este projeto. Os membros mais velhos foram absolutamente contra argumentando que a forma da caixa era demasiado simplificada e genérica, não podendo portanto alcançar a carga icônica que se esperava do projeto. O corte geracional ficou evidente ali. O projeto da caixa foi eliminado por conter outros problemas mas tanto eu quanto o colega sul-coreano da minha geração insistíamos no fato de que enquanto os outros projetos tinham geometrias muito mais complexas e orgânicas, aquela caixa era a única verdadeiramente dinâmica e mutante.  No final prevaleceu um julgamento sobre a natureza genérica da caixa e os mais velhos, formados por volta dos anos 60 e 70, tiveram muita dificuldade em entender nosso argumento sobre a elegância mutante do projeto.

Em resumo, eu tenho certeza que o júri escolheu o melhor projeto, voltei pra casa orgulhoso da responsabilidade que me foi concedida e com a certeza de que aprendi muito, mas muito mesmo nos três dias em Seoul. Agora é torcer para que o concurso do SPAC não termine na vala comum dos concursos engavetados e que a cidade de Seoul possa usufruir em alguns anos de seus novos e belos auditórios,  de sua ilha fluvial e de seu novo ícone.

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(*) arquiteto, professor da University of Michigan

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