Veja abaixo o projeto da equipe composta por Alessandro Moreno Muzi, Hernani Carvalho Paiva e Luiz Marino Küller, finalista e menção honrosa no Concurso Internacional para o Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP.

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Memorial Descritivo

1 – Introdução

Como falar de ciências e suas implicações sem colocá-la dentro de um contexto social¿ Para além de uma simples discussão sobre conhecimento puro e novas possibilidades tecnológicas enxergamos a ciência dentro de redes que a relacionam com política e sociedade, sem uma exata definição de limites ou fronteiras. Aonde colocar, num jornal, uma notícia sobre o aquecimento global e suas implicações ? Na parte de ciências ou na parte sociedade ?

Dentro deste contexto, estamos cada vez mais acostumados a, mesmo com a imposição de barreiras disciplinares, ter que lidar a interdisciplinaridade. Causa e efeito não constitui mais uma base para equações válidas. Para nós, a construção de um museu de ciências tem que abrir espaço para refletirmos sobre este processo, sem a obrigação de refletir o processo.

Vista aérea do conjunto

Por derivação, dar ao visitante a liberdade de decidir o percurso a fazer, e, mesmo se conformado por uma exposição de circulação mais restrita, de permitir o vislumbre de boa parte da área de exposições.

Vista a partir da futura Praça do Tempo e do Espaço

2 – Implantação e relação com entorno

O local destinado ao novo museu de ciências se encontra isolado de um contexto urbano ou adensamento mais significativo, sendo ponta de lança do desenvolvimento de uma nova gleba adicionada ao campus da Unicamp, território já consolidado e em contínuo processo de reciclagem. Encontra-se em um morro com domínio visual da Universidade e áreas próximas, sendo esta característica a que norteia os níveis de implantação.

Implantação

Dentro deste contexto – isolamento de um contexto urbano e predominância topográfica – o partido adotado cria um edifício auto-suficiente, implantado de modo a manter este domínio visual da universidade tanto a partir da cobertura proposta no novo edifício como da futura Praça do Tempo e Espaço.

Vista da Área de Exposições, a partir da passarela do nível intermediário (N654)

É proposto um novo eixo de organização do terreno do museu existente, de modo a unificar através de dispositivos espaciais e paisagismo as construções existentes (praça do tempo e espaço e administração) e o novo edifício.

Vistas ilustrativas do interior dos “cubos”, parte das áreas de exposição com controle de iluminação, ventilação e acesso.

3 – Agenciamento do programa e circulação

O edifício se divide em três áreas: área técnica, área de acesso público livre e área de acesso público restrito. Cada uma das três áreas conta com circulação vertical (elevadores mais escadas) exclusivo.

A comunicação entre as áreas se dá em todos os andares, mas é controlada de modo a que os fluxos de funcionários e visitantes possam ser separados, permitindo a utilização sem restrições das áreas destinadas ao projeto e preparo das exposições do museu.

Diagrama dos espaços expositivos

A área de exposições consiste em um grande pavilhão que abriga três elementos sólidos de geometria clara e dispostas em seqüência com variação de altura/volume e cor a partir de um sentido.

Como um sistema à parte, permeando esse cenário descrito acima de coerente rigidez, existem as passarelas metálicas, permitindo fluxos diversos e experiências de percurso e de relação do público com o ambiente.

Vista da entrada do edifício, a esquerda o balcão de informações e a frente o café do por do sol.

Através da seqüência de experiências, o espaço é construído pelo visitante a partir de constantes dualidades: vazio x fechado, geral x particular, centrífugo x centrípedo, etc. Na disputa destas características marcantes, as exposições são reorganizadas

Pavimentos térreo alto (N658), intermediário (N654) e térreo baixo (N650)

Temos portanto duas seqüências de ambientes.

O ambiente aberto compreende os grandes vazios do edifício, que permitem a instalação de grandes estruturas de exibição, mas com limitações de controle de luz e temperatura. Em contraposição temos os ambientes fechados, com controle total de luz, temperatura, público.

A setorização em exposição permanente e temporária deverá lidar com estes espaços, procurando a configuração mais adequada, de acordo com o projeto museográfico do museu.

Cortes transversais B-B, C-C e D-D

4 – Estrutura

Definimos a modulação estrutural em dois eixos longitudinais distantes entre si 25 metros, e na direção transversal dispomos eixos de 10 em 10 metros, totalizando 11 eixos, correspondendo cada encontro de eixo uma coluna.

Vencendo o vão de 25 metros dispomos uma viga de concreto protendida biapoiada.

Em um dos extremos, esta viga forma um balanço que atiranta parte da laje do pavimento inferior – este balanço mais o tirante ajuda a melhorar a performance da viga, balanceando os momentos resultantes do carregamento no centro do vão e consequentemente diminuindo a seção da viga. Estas vigas protendidas também terão capacidade para carregamentos pontuais, a serem utilizados em exposições diversas.

Este é o sistema geral da estrutura, formando um pavilhão contínuo, abrigando as planos de laje a ela estruturada e os blocos isolados.

O fechamento da cobertura é realizado por lajes maciças executadas com painéis treliçados, vencendo o vão de 10 metros. Com esta técnica buscamos um modo de eliminar o uso de formas, e do uso denso de cimbramento e escoras, facilitando a execução especialmente para áreas com pés-direitos altos.

Detalhe construtivo

As lajes dos pavimentos inferiores – níveis 654 e 658 – serão lajes tipo “cogumelo”, apoiadas na grelha de pilares existentes e como já dito atirantadas em parte nas vigas protendidas.

Para as passarelas, dentro da área de exposição empregamos o uso de estrutura metálica, por duas razões principais. Primeiro, por definição de liguagem arquitetônica, permitindo pavimentos mais esbeltos, destacando os volumes prismáticos coloridos. Em segunda razão por facilidade de execução, prescindindo de formas de concreto muito delicadas, dispostas a grandes alturas. Com a estrutura metálica essas passarelas podem ser executadas após todo o conjunto estar concluído.

A estrutura dos cubos será executada através de pilares e vigas de concreto armado de maneira convencional e lajes nervuradas – armadas em duas direções – com sobrecarga para suporte de elementos necessários para expografias diversas.

5 –Sistemas e funcionamento do edifício

Proteção solar e de luminosidade

Para controle de radiação solar e de luminosidade é prevista uma “pele” de chapa perfurada que protegerá o edifício do sol direto durante a tarde, garantindo que haja luz natural abundante durante o dia, mas sem sol direto e sem o perigo de ofuscamento dos visitantes.

Na laje que cobre o edifício, prevemos a utilização de uma cobertura vegetal extensiva, de profundidade baixa. Essa cobertura terá dupla função – permitirá que a laje superior do edifício ganhe inércia térmica e consequentemente diminua a contribuição de calor dada por esta face; permitirá também o reaproveitamento das águas pluviais para reuso no edifício.

Diagramas de conforto ambiental

Ventilação Natural

O controle térmico do edifício se dá através do aproveitamento do vento dominante (SE), orientando as aberturas do edifício na fachada E, de modo a que o vento que cruza o terreno atinge o edifício e retira o calor e prove a troca do ar interno. Dado que a região de Campinas possui períodos de calmaria freqüentes, prevemos também a troca de ar através de efeito chaminé.

Ar Condicionado

Dada a adoção de sistemas de proteção solar passiva e ventilação natural, optamos por condicionar totalmente apenas cerca de 40% da área total de exposição, a exposição multimídia e o auditório. Estas áreas possuirão ar condicionado de conforto para verão. Trata-se de sistema de ar condicionado central, do tipo expansão direta com utilização de equipamentos Self Contained, com condensador resfriado a ar, locado em Casa de Máquinas zoneado de forma a atender individualmente cada área de exposições mais o auditório.

Cobertura Verde e reaproveitamento de água.

A adoção de uma cobertura verde extensiva de baixa profundidade – 15 cm. de terra e forração, mais 15 cm de piso flutuante – permite que se tenha um sistema de “filtragem” da água de chuva para reuso. Em períodos de estiagem, as forrações deste sistema podem ser alimentadas com água servida das pias dos banheiros e vestiários. A água filtrada pelo sistema poderá ser utilizada para as descargas dos vasos dos banheiros ou para alimentar os espelhos d´água que circundam o edifício.

Iluminação

Dadas as possibilidades múltiplas de montagem de exposições é prevista a instalação de trilhos eletrificados dentro dos cubos, que permitam a instalação de sistemas de iluminação diversos. Em exposições com situações mais complexas pode ser considerado o aluguel de refletores mais adequados, compatíveis com o sistema de eletrificação. Nas áreas de exposição fora dos cubos são previstos, além da iluminação natural abundante durante o dia e iluminação para conforto, trilhos perimetrais para iluminação.

Sistemas em geral

Junto da área técnica (oficinas e administração), se concentram todas as salas de controle do edifício. As passarelas que interligam os cubos e acessos na área de exposição fornecem um suporte para a distribuição da infra-estrutura de funcionamento do edifício – ar condicionado, elétrica, lógica, hidráulica, etc., garantindo que haja cobertura de redes de hidráulica e elétrica em todas as áreas de exposição.

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Ficha Técnica

Autores: Alessandro Moreno Muzi, Hernani Carvalho Paiva e Luiz Marino Küller

Consultor de Estrutura: Yopanan Conrado Pereira Rebello

Consultor de Ar Condicionado: Roberto Akio Hatori

Consultor de Paisagismo: Tomás Rebollo

Consultora de Conforto Ambiental: Denise Helena Silva Duarte

Orçamento: Newton Kayano

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Agradecemos ao Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP pela disponibilização dos projetos e informações.