Concurso – Complexo do Hotel Paineiras – RJ

Menção – Marcelo Souza Leão, Celso Vinícius Sales, Alba Raquel, Edílson Tavares (PE)

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Cenários de pedra e verde, grutas e quedas d’água. Estradas e trilhas escavadas nas paredes de rochas formando novas paisagens – muitas inusitadas. E no vale onde se cruzam as estradas do Redentor e das Paineiras, ergue-se uma arquitetura monolítica e sóbria, secular, testemunho de homens que desbravavam a mata virgem em época imperial. Monumento que atravessou décadas com imponência e charme – enquanto personalidades históricas percorriam seus corredores e salões –, hoje é apenas um fantasma insistente, resistindo à ação da natureza e do tempo.

Restaurar não é suficiente para dar vida. O Hotel Paineiras, isolado do contexto da Cidade, é apenas rota daqueles que desejam acessar o Cristo. Daqueles que desconhecem sua história (anterior à do Redentor) e muitas vezes nem mesmo o vêem, oculto em meio à mata fechada. Para que sua renovação seja plena e duradoura, é necessário transformar o Hotel num elemento ativo e diferenciado no circuito turístico carioca, transformando-o em ícone arquitetônico e cultural.

Vista Geral do Complexo

O vasto programa de necessidades do projeto não deveria converter-se em um novo e contundente bloco fechado, anexo ao Hotel: a exuberância da paisagem e a História convivem harmoniosamente há décadas, sós, e o desejo de quem chega a esta clareira no Parque da Tijuca é percorrer espaços, sentir o sol, o ar, a neblina, a fauna e a flora penetrando espaços. Optou-se, assim, por uma arquitetura de espaços públicos amplos que permitam ao visitante escolher variados percursos; uma arquitetura que atue como pano de fundo ao Hotel, recuperando seus valores, modernizando-o e integrando-o às atividades do Complexo. Arquitetura de contrastes, relendo a paisagem: ora bruta e escavada em rochas projetadas e geométricas, ora leve e translúcida com o verde e as águas dominando seus espaços.

Vista da esplanada de desembarque e das edificações anexas

Inicialmente, o eixo longitudinal do Hotel, marcado por pares de colunatas, foi a origem do partido arquitetônico proposto. Esta linha estende-se ao longo do terreno, gerando o grande eixo compositivo que colocará o Hotel como ponto focal de todo o Complexo e servirá como referência para a locação de inúmeros equipamentos. É através deste eixo que o visitante será induzido a conhecer o Complexo, explorar o alongado terreno e, por fim, penetrar e atravessar o Hotel.

Duas são as principais intervenções do projeto, que definiram a nova linguagem do conjunto. A primeira foi a execução de cortes no terreno, aproveitando a acentuada diferença de cotas, criando duas plataformas distintas que diferenciam os espaços da Estação de Transferência (no nível mais baixo) e do Centro de Convenções (em nível elevado); a segunda foi a concentração de todo o estacionamento em subsolo, e sua cobertura será utilizada como esplanada aberta ao público.

Vista da Passarela a partir do nível de desembarque

A área de desembarque de visitantes dá-se exatamente no extremo norte do terreno, e após deixa-los, as vans e carros particulares podem descer ao subsolo. Esta solução evitou a presença (física, visual e sonora) de centenas de automóveis próximos ao público, conturbando as atividades do complexo.

O eixo é espacialmente reforçado por uma passarela, cuja função é interligar as extremidades do Complexo e fornecer abrigo suspenso, destacado e aberto àqueles que desejam acessar os diversos setores do conjunto, incluindo bilheterias e área de embarque – principalmente em dias de maior fluxo de visitantes, quando a fila para compra de ingressos pode atingir dezenas de metros. Mirante da paisagem, da linha férrea e das edificações complementares, e não somente espaço de circulação, a passarela ergue-se suave aos olhos do transeunte; com o tempo, uma cobertura verde envolverá este longo prisma de aço e madeira, alterando sua imagem a cada estação. Apóia-se em apenas três pontos, dois dos quais são circulações verticais que se comunicam com os pavimentos de estacionamento e térreo, enquanto o terceiro toca a estrutura da rampa de saída de veículos. É através deste ponto que os pedestres chegam às bilheterias e avistam a fachada lateral do Hotel – branco volume pousado sobre base em concreto aparente e pano de fundo à grande Paineira. Envolta por um anel de circulação, a árvore é ponto articulador entre os eixos do Hotel e da passarela, brotando de um jardim em cota mais baixa, onde funciona o foyer do auditório.

Vista da Passarela e Hotel a partir do desembarque visitantes

É exatamente neste nível onde o Hotel interage diretamente com o Complexo: o subsolo do Hotel, segregado local de serviço, converte-se agora em espaço nobre e cultural, onde áreas de exposições temporárias e permanentes escavam as entranhas do Hotel, alternando-se em reentrâncias variadas. Um grande rasgo, aberto entre as colunatas, mantém o visitante em contato visual com o lobby. Sutilmente recoberta com lâminas de vidro, esta fenda traz luz e surpresa aos novos espaços.

Vista do Hotel a partir da passarela

Uma linha d’água circunda o disco da Paineira, escorre paralelamente ao eixo, deságua em superfície ampla e ligeiramente rebaixada e precipita-se em uma cascata curva que corresponde à estrutura da rampa de saída de veículos. Comprados os bilhetes, pode-se descer ao nível do embarque – vans que realizam o transporte ao Corcovado –, ou subir por rampas à Estação Paineiras. No nível do embarque das vans, um grande deck e um jardim semi-circular configuram um agradável espaço de espera. Retornando do Corcovado, os visitantes são deixados em uma esplanada, diante da qual abrem-se lojas, livrarias, banheiros e bicicletário, ponto de encontro e convivência com mesas e jardins e apoio àqueles que percorrem as trilhas do Parque . À tarde, esta grande praça recebe a sombra da passarela

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O concreto aparente é material predominante em todo o projeto: edifícios esguios e geométricos – formados por grandes planos opacos com aberturas escavadas – correm contíguos à passarela, erguem-se em harmonia com a subida do trem e põem em foco o Hotel; A rusticidade do material adentra e atravessa o subsolo do Hotel, atingindo o Alpendre, no extremo sul do Complexo. Este edifício, bastante descaracterizado ao longo das décadas, teve seu desenho original recuperado, com o uso de novos materiais: dois grandes volumes laterais, em concreto aparente, circundados por beirais translúcidos, abrigarão cafeteria, caixa e banheiros; pilares metálicos, telhas e piso originais foram mantidos para lembrar o passado, enquanto contempla-se a paisagem do vale e degusta-se o sabor carioca.

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As intervenções realizadas no Hotel consistiram na demolição do último pavimento, dando lugar a um restaurante para uso exclusivo de hóspedes, além da criação de espaço de lazer e piscina. A remodelação da fachada posterior ao Alpendre inseriu contemporaneidade ao edifício pelo uso de pano de vidro com folhas corrediças e brises em madeira, os quais são móveis nos pavimentos das suítes e fixos no térreo, ocultando assim a cozinha e áreas de serviço. Estes mesmos elementos foram usados em todo o complexo, principalmente nas fachadas oeste, para controle de insolação e circulação de ar. Cobertas verdes trazem amenidade climática aos ambientes e integram as edificações à paisagem.

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O Complexo Hotel Paineiras busca ultrapassar os limites do mero funcionalismo e restauro. Sua arquitetura fornecerá bases para a inclusão do Parque da Tijuca nos roteiros culturais do Rio, reafirmando a história e a cultura do Estado.

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Ficha Técnica

Autores:
Marcelo Souza Leão (arquiteto inscrito)
Celso Vinícius Sales
Alba Raquel
Edílson Tavares

Consultores:
Gamal Asfora (estrutura)

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Fonte: IAB-RJ e autores do projeto, aos quais agradecemos pela disponibilização das informações.