Concurso Internacional de Ideias Para Estudantes de Arquitetura – Nona BIA – SP – Destaque

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Titulo do Projeto: Fragmentos Verticais – Coexistencia na Sé

Alunos: André Luis dos Santos, Felipe Alberto Alves Vieira, Luiz Gustavo Sobral Fernandes, Renan Bussi Machado e Paulo Eduardo Scheuer

Professor Orientador: Celso Lomonte Minozzi

Instituição de Ensino: Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Resumo da proposta

A proposta pretende ser um discurso que possibilite cidadania, o reconhecimento no outro por meio do espaço coletivo. O partido do projeto lê as coexistências da cidade e encontra no desenho das quadras a reprodução desta dinâmica espontânea, transformando os limites dos lotes em volumetrias e fachadas. A multiplicidade e disposição destes ambientes favorecem e influenciam atos cidadãos: para habitar e transitar pelo espaço projetado, necessita-se ver e conviver com o homem e sua diversidade.

Memorial

No centro de São Paulo há uma praça. Uma praça que é duas. Uma é fonte, a outra ferida. Os sons da cidade ressoam diferentes ali. Dois lugares, um de vida, puro fluxo, congestão de eventos, onde a cidade aflora e revela-se, tão sua quanto é capaz de ser. A outra é contradição, silêncio, uma pausa que esquecida, deixa de ser vivida.

A proposta aprofunda-se num lugar capaz de condensar os mais diversos usos e apropriações do espaço urbano, lugar de acúmulo de importâncias históricas, geográficas, culturais, sociais, afetivas, por fim, um ponto de centralidade absoluta.

PRAÇA DA SÉ, nó de redes conectivas que conformam a cidade. Seu espaço físico é cenário e reflexo das mais diversas intersecções de eventos que ali ocorrem diariamente, e se acumularam por várias gerações, desde a vila até a megalópole, desde o modesto largo em frente a Sé original, até a enorme área existente. Corresponde a uma localidade de inquietude que parece ser composta por fragmentos de significação deixados no espaço pelo tempo, em seu SER carrega o que FOI, o que É, e aguarda impaciente o que SERÁ.

Apresentamos um projeto para ser lido como discurso e sentido como transformação, que não apenas CONSTRUA cidadania, mas de fato a POSSIBILITE. Cidadania entendida pela capacidade de se reconhecer no outro, de ser um e ser todos. De forma semelhante acreditamos que um espaço que pode construir cidadania deve poder propiciar o (re)conhecimento do outro, e de si mesmo. Nas palavras de Denise Jodelet, “um lugar que possa ser definido por seu caráter identificador; um lugar que permita que seus habitantes se reconheçam e se definam por meio dele, que, por seu caráter relacional, permita a leitura da relação que os habitantes mantêm entre si, e por seu caráter histórico, possibilite que os habitantes reencontrem os vestígios de antigas implantações, seus sinais de filiação”.

O espaço urbano é criador, mas também criatura das relações sociais; as práticas, ainda que fragmentárias e carentes de auto-reflexão, se desdobram tanto espacial quanto temporalmente nas cidades e são as principais organizadoras da vida urbana.  Negar-lhes a autenticidade de seu papel (des)estruturador é negar o próprio contexto que possibilita o ser social, dito cidadão. Trata-se de perceber que os espaços de conexão, estes os verdadeiros suportes da IDENTIDADE metropolitana, se manifestam ultimamente na tangencia do mundo concreto para se tornarem LUGAR, formarem CIDADE.

Problemática

A construção do metrô, na década de 1970, desarticulou a praça Clovis Beviláqua, construída anteriormente com a demolição de uma quadra em frente ao atual Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, onde estavam o Palacete Santa Helena e o edifício Mendes Caldeira. Criou-se, então, um único espaço, um espaço órfão. No seu texto Arquitetura Para o Terceiro Milênio, Flávio L. Carsalade afirma que “a leveza da arquitetura está na sua forma de alçar vôo, mas com raízes profundas no solo em que se instala.” Mas o desenho fruto da intervenção do metrô é inapropriado e incoerente. Conformado por dois vazios, área imensa, não se lê um nem outro. Na estrutura da praça era legível  há a subordinação do espaço público ao subterrâneo. Esta escolha levou a rigidez e setorização excessivas dos espaços, a falta de visibilidade que não favorece a circulação e a fruição dos mesmos pelos pedestres.

Protagonismo de uma praça fragmentada: proposta

Cercada por cidade a praça é protagonista, ou melhor, a vida nela presente. Procuramos enaltecer um lugar em que ainda hoje as pessoas se permitem ver ao próximo, onde a palavra do outro interessa, seu talento atrai, sua marginalização indigna, e sua pressa acelera.

Nesse sentido nos preocupamos com um volume que valorizasse a praça da catedral, algo que não se rendesse aos apelos escultóricos artísticos, mas da cidade, do movimento dela, de seu desenho urbano coletivo. Esse volume deve ser sóbrio e simples, algo que oferece novamente abrigo a praça da catedral. Tentou-se agregar os valores positivos da cidade tradicional: ruas de traçado orgânico e dimensões modestas, desenhadas pelas fachadas das edificações lindeiras, sem recuo frontal e lateral de seus respectivos lotes.

Não se quer meramente reproduzir a volumetria das quadras históricas, mas sim propor algo que remeta a elas enquanto experiência espacial, desenho urbano, e portanto, experiência humana e social.

Propomos a mesma descoberta e surpresa propiciada pelo desenho das vias e tipologias tradicionais no interior do edifício, partindo da elevação de duas plantas de quadras do entorno da Sé, com a projeção das edificações e a divisão fundiária (GEGRAN), nas fachadas laterais e extrudando as geometrias resultantes, formando volumes internos e os ligando sem uma lógica definida com as circulações internas, além de dividir os usos fragmentadamente nesses volumes internos, a fim de propiciar uma circulação cruzada de usuários no seu interior.

Mais do que isso, na constante e nem sempre ética disputa pelo território urbano, o projeto afirma a rua como o território universal, ao levar essa atmosfera democrática para o interior da nossa proposta conceitual de edificação. Ela é o lugar que, pelo menos em tese, é de bem comum de uso do povo, é na rua que todos têm o mesmo direito, independente da propriedade fundiária, da classe social, etnia, nacionalidade ou qualquer outra classificação. Nas vias podemos ver cidadãos de todos os extratos sociais dividirem o mesmo espaço, e mesmo que não haja simpatia, há aceitação, coexistência, e por que não dizer, há contato. A ponto de, paradoxalmente, a rua se tornar o abrigo de quem já não tem abrigo em nenhuma outra instância: o morador de rua.

Desta maneira, vemos a edificação como um loteamento vertical. Propomos módulos vazios, como lotes ainda não ocupados, alguns sem acesso, abertos apenas na fachada, e que quando for conveniente aos seus proprietários tem a parede interna aberta e é ocupada ao gosto das demandas e do contexto do porvir, como ocorre na própria cidade. Pensamos em algo que traga para dentro da edificação a universalidade e a democracia das ruas do centro histórico, que a todos abriga. Se um espaço pode ser assim, e funcionar, por que não em toda a cidade, e na própria sociedade?

No que diz respeito à praça sobre o metrô, as habitações e os comércios na edificação dariam nova dinâmica a ela. A fonte da praça, por sua vez, sofre intervenção como entorno. Utilizada como lavatório por moradores de rua atualmente, propomos transformá-la em uma piscina pública.

Ainda, a abertura circular superior da estação, envolta pelo espelho d’água da fonte na praça, seria substituída por um grande domo convexo espelhado, propiciando o contato visual entre quem está na plataforma de embarque e os usuários na superfície. Esse domo talvez seja a peça que resuma nossa proposta, pois de algum modo ele proporciona contato, mais do que isso, ele faz com que pessoas diferentes se vejam, e vejam a si mesmas.

Apesar das desigualdades sociais existentes no meio urbano, podemos idealizar uma cidade na qual os diferentes coexistam, interajam, sem muros, sem segregação violenta, mas sim a aceitação do outro. Fazemos nossas as palavras de Ignasi de Solà-Morales, no livro Territorios:

“Em uma situação de contínua construção e destruição, de permanente crescimento e renovação, de mutação e obsolescência a condição casual, imprevisível da cidade se converte em seu verdadeiro modo de exposição. A cidade atual se apropria de sua energia, mas também de seus conflitos sociais, geológicos, ambientais, aceitando com fatalismo conviver com eles”.

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Agradecemos aos autores pela disponibilização no material para publicação.

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Uma resposta em “Concurso Internacional de Ideias Para Estudantes de Arquitetura – Nona BIA – SP – Destaque

  1. Desde novembro de 75 (já se vão quase 37 anos) que a cidade de São Paulo não vê um edifício nessa “quadra”. Os cidadãos que hoje trabalham e passam pela Sé, em sua maioria, nem eram nascidos para terem fortes recordações sobre a quadra onde ficava o “finado” Palacete Santa Helena e Edifício Mendes Caldeira. Para a massa da população economicamente ativa a praça da Sé é como é hoje. A antiga virou história na boca dos aposentados e nos livros de imagens antigas.
    Passaram-se quase 40 anos. São Paulo, no início do século XX, foi demolida e construída num período semelhante. Aqui as coisas mudam rapidamente, correndo desesperadamente para uma estabilização que nem sabemos se vai ocorrer. Então, 40 anos é muito tempo para São Paulo. Nos habituamos com a Sé de hoje. Nos anos 80 a Avenida Paulista era o simbolo mór da pujança paulista. Hoje esse título pode ser dado tranquilamente à Avenida das Nações Unidas , Av. Berrini, Av Faria Lima, muito mais arrojadas e pujantes (apesar de pior planejadas) do que a hoje decadente Paulista, repleta de prédios sujos, em péssimo estado de conservação e/ou semi-abandonados.
    Uma intervenção para recuperar a Sé passaria (na minha opinião) fundamentalmente pelo saneamento social em resolver a situação dos moradores de rua, crianças abandonadas, gente sem emprego e sem perspectiva e consumidores de drogas que se reúnem nessa praça desde que me conheço por gente (e lá se vão mais de 30 anos) para finalmente entregá-la usufruto dos ditos “cidadãos de bem” como classificamos a nós mesmos. A praça nunca foi utilizada pois nunca houve condições reais de utilizá-la. As pessoas que hoje perambulam por seus compartimentos inibem a passagem/permanência dos demais cidadãos que tem receio de serem assaltados, importunados, incomodados. Ao meu entender, esse projeto não resolve esse problema e talvez cria um maior, interrompendo bruscamente os visuais livres que hoje temos da Catedral, Tribunal, edifícios ecléticos etc. A praça tem problemas, sim. Mas são problemas humanos que a cidade tem que encarar e solucionar de vez. Só não vale aplicar medidas “higienistas” como as adotadas na “cracolândia”. Uma vergonha exibida em cadeia nacional.

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