Como parte da seção Obras Construídas, publicamos o projeto de reforma e ampliação da Escola Alemã em Lisboa. O projeto, resultado de concurso, é do escritório Carrilho da Graça arquitectos.

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Memorial Descritivo (texto de Vasco Melo)

Em 1961, quando foi construída a Escola Alemã de Lisboa, a prática arquitetônica nacional encontrava-se dividida entre a arquitetura do estado novo e uma crescente resistência decorrente do 1º congresso nacional de arquitetura de 1948, da formação, no mesmo ano, da Ordem dos Arquitetos Modernos, e da publicação do Inquérito à Arquitetura Popular – entre 1955 e 1961.

O arquiteto alemão Otto Bartning, autor da Escola Alemã de Lisboa, tinha já desenvolvido um notável trabalho decorrente da sua formação que acompanha a criação do Movimento Moderno. Participou em vários projetos com Walter Gropius, Erich Mendelsohn, Max Taut, Bernard Hoetger e Adolf Meyer. Teve uma ligação ao movimento moderno Suíço através de Marx Ernst Haefeli cujo mestre foi o arquiteto Karl Moser e participou no desenvolvimento de projetos na Alemanha do Pós-Guerra, como por exemplo a reconstrução do Bairro de Hansaviertel (1953-1954).

A Escola Alemã de Lisboa é neste contexto um conjunto de edifícios construídos sob as premissas do Movimento Moderno, contrastante com a prática de uma Arquitetura Nacionalista imposta pelo Estado Novo. Otto Bartning reafirma com a Escola Alemã de Lisboa uma necessária e emergente reforma do panorama da arquitetura em Portugal. A organização do conjunto de edifícios conformava espaços verdes e permitia percorrer o espaço da escola de um modo fluído e envolto, na época, numa atmosfera rural.

Atualmente, a escola encontra-se rodeada pela densa área habitacional de Telheiras. Em virtude das novas necessidades funcionais e programáticas, a harmonia do conjunto foi sendo descaracterizada por construções de carácter efémero, circunstanciais e desvinculadas do projeto original.

O projeto de João Luis Carrilho da Graça foi selecionado no contexto de um concurso internacional que tinha o objetivo de requalificar a Escola Alemã de Lisboa, adaptando-a a novas exigências  de atividades e programas escolares.

O projeto baseia-se em três princípios essenciais:

1 – Modernização dos edifícios existentes – recuperar e reinterpretar  a articulação formal e funcional do pré-existente, adaptando-o aos novos programas de funcionamento da escola, valorizando a qualidade do conjunto edificado com a demolição de todas as intervenções com carácter provisório.

…”Para o gigantesco aparelho da vida social, as opiniões são aquilo que o óleo é para as máquinas; ninguém se chega a uma turbina e lhe verte óleo para cima. Injecta-se, sim, uma pequena quantidade em rebites e juntas que têm de ser previamente conhecidas.”

Benjamin, Walter; Rua de Sentido Único; trad. Isabel de Almeida e Sousa; Relógio d’Água Ed. 1992 Lisboa; p.37.

A intervenção de Carrilho da Graça nos edifícios projetados por Otto Bartning confirma, que sobre os princípios do Movimento Moderno, praticados pelo arquitecto alemão, é possível haver uma reinterpretação compatibilizando novas infra-estruturas que reforçam e otimizam as qualidades do pré-existente.

Nos edifícios do Liceu interligados por percursos cobertos e também no edifício da administração, são introduzidas novas infra-estruturas e aplicados novos materiais no revestimento de pavimentos e tectos, o que permite optimizar acústica e termicamente os espaços. Os materiais utilizados são criteriosamente selecionados, existindo um dialogo concordante com o projecto de O. Bartning.

No caso deste conjunto de edifícios, a intervenção é bastante condicionada pelos pressupostos definidos no programa da Escola, e inclusive o edifício do Jardim Infantil não sofre qualquer tipo de intervenção.

O único edifício alvo de uma maior readaptação funcional é aquele onde se encontrava o auditório, a cantina e o ginásio. Este edifício com funções comuns e nucleares para toda a escola configura, conjuntamente com o Liceu A, um pátio onde se encontra a piscina. No seu interior, moderniza-se o auditório, em fase de conclusão, com novos equipamentos e tratamento acústico, otimiza-se o espaço da cantina, introduz-se uma cafeteria que se prolonga para o espaço do pátio contíguo à piscina, e no lugar do antigo Ginásio constrói-se a nova Biblioteca. As exigências do novo regulamento escolar sobre Pavilhões Desportivos exigia a criação de um novo espaço. Desta forma Carrilho da Graça reinterpreta o antigo Pavilhão projetado por Otto Bartninger para dar origem à nova biblioteca, mediateca e salas de trabalho. Sutilmente é incorporado neste espaço um novo volume que quebra a dupla altura do pavilhão localizando-se no piso inferior, a Sala de Leitura e no superior, a Mediateca e Salas de Trabalho para professores. Desde o interior deste novo volume, sobre o espaço de leitura, um plano de vidro, permeabiliza a relação vertical do conjunto. Este elemento torna-se fundamental para entender e caracterizar um lugar de leitura – a dupla altura do espaço da biblioteca observado desde a mezanino evoca uma particular atmosfera literária, que recebe luz natural a nascente, através dos grandes vão existentes.

2 – Construção de um novo Pavilhão Desportivo

Como foi já referido o novo Ginásio é criado de forma a responder às novas exigências do regulamento sobre espaços desportivos, mas também pela necessidade de ampliar a sua dimensão. O edifício localiza-se a nascente da entrada principal da Escola permitindo formar, conjuntamente com os dois edifício pré-existentes, uma praça de entrada, no lugar onde anteriormente existia um parque de estacionamento.

Organizado em dois pisos, aproveitando a topografia do terreno, definindo-se por uma volumetria pura. O acesso desenvolve-se, no piso superior, a partir de uma plataforma que funciona simultaneamente como local privilegiado para assistir a eventos desportivos ao ar livre.

No interior, o mezanino que dá continuidade à plataforma exterior, funciona como “bancada” para o público.

No piso inferior, sob  o mezanino e a plataforma exterior, organizam-se as áreas técnicas, serviços e balneários. Apartir daqui podemos ingressar na área desportiva do ginásio, aceder aos campos exteriores e, através da passagem subterrânea, à piscina do complexo pré-existente.  Sobre a área de jogo o sistema de iluminação natural concretiza o ambiente e a identidade do espaço, sugerindo a ideia de um “contentor híbrido”, polivalente, capaz de suportar vários tipos de eventos.

3 –  Construção da nova escola primária

Do lado oposto do recinto escolar, a Sudoeste, o edifício da escola primária delimita o espaço de recreio e permite criar uma barreira ao intenso tráfego da avenida General Norton de Matos (2ª circular). Composto por dois pisos, inscreve-se no território através de um corpo alongado sobre perímetro da escola.

A opacidade da parede de betão, parcialmente aterrada, coroada por uma superfície contínua em vidro translúcido e revestida por uma vegetação de folha caduca, permite assegurar a qualidade acústica e térmica do edifício, a Sul. Em contraponto, o alçado Norte, totalmente revestido a vidro, proporciona a iluminação natural ideal e permeabiliza a relação com o campo relvado da praça de recreio.

No interior do edifício as circulações são dispostas a Sul e os espaços administrativos, serviços e salas de aula a Norte.

O piso térreo é ocupado genericamente por espaços mais sociais – administração e serviços, requisitos pedagógicos com carácter colectivo – oficinas e salas polivalentes e, na sua extremidade nascente, pelas salas de música.

O piso superior, alberga genericamente os espaços de ensino.

As circulações dos dois pisos, sobrepostas, são ligadas por uma sequência de escadas que garantem um acesso mais directo ás salas de aula; a sequência de escadas e as múltiplas aberturas permitem criar um “espaço diagonal” que induz a uma percepção tridimensional das duas áreas de circulação, unificando-as e agregando-as num só espaço.

Os dois novos edifícios projetados por Carrilho da Graça afirmam uma rotura com o existente, que permite valorizar simultaneamente o construído pelo arquiteto O. Bartning e localizar legitimamente ambas as intervenções no tempo. Na forma como são introduzidas as novas construções, e no carácter dos espaços e materiais utilizados, reconhece-se uma ordem que se completa, no modo como são preenchidos de acontecimentos e que, quando vazios, sugerem ser habitados.

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FICHA TÉCNICA

AMPLIAÇÃO E MODERNIZAÇÃO DA ESCOLA ALEMÃ DE LISBOA . 2003-2010

CONCURSO POR PRÉ-SELEÇÃO  – PRIMEIRO PRÊMIO

PROJETO: Carrilho da Graça arquitectos

COLABORADORES: Francisco Freire, Paulo Costa, Joanna Malitski, Vera Schmidberger, Paula Miranda, Marcos Roque, Raquel Morais, Luis Cordeiro, Vanessa Pimenta, arquitectos; Nuno Pinto, desenhador.

FUNDAÇÕES E ESTRUTURA: AFA consultores de engenharia, Rodrigo Castro, engenheiro

INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS, GÁS: AFA consultores de engenharia, Paulo Silva, engenheiro

INSTALAÇÕES MECÂNICAS: AFA consultores de engenharia, Isabel Sarmento, engenheira

FISICA DOS EDIFÍCIOS: NATURALWORKS, Guilherme Carrilho da Graça, engenheiro

INSTALAÇÕES ELÉCTRICAS, TELECOMUNICAÇÕES E SEGURANÇA: AFA consultores de engenharia, Raúl Serafim, engenheiro

INSTALAÇÕES DE SEGURANÇA: AFA consultores de engenharia, Maria da Luz Santiago, engenheira

ARQUITETURA PAISAGISTA: GLOBAL, João Gomes da Silva, arquiteto

CENOGRAFIA: ARSUNA,  Flávio Tirone, arquiteto

ESTUDOS CROMÁTICOS: P06- ATELIER, Nuno Gusmão, designer

ÁREA:

construção nova – 4500 m2

Intervenção existente – 7500 m2

Espaços exteriores – 30200 m2

PROMOTOR: Escola Alemã de Lisboa

TEXTO: Vasco Melo

IMAGENS: Carrilho da Graça arquitectos, João Silveira Ramos (imagens ©jsr) e FG+SG – Fotografia de Arquitectura (imagens ©fg+sg)