Atravessar o Eixão

Atualizado em 08/10/2012.

Atravessar o eixão.

por Carlos Henrique de Lima (*)

O concurso de estudos preliminares para as passarelas sob o eixão realizado no primeiro semestre de 2012 pelo IAB-DF e governo local foi um êxito no que se refere, até o momento, a dois aspectos primordiais: o próprio resultado do certame, que premiou, acredito, a equipe que lançou maior número de possibilidades à apropriação daquele espaço; e a sua repercussão, que extrapolou os círculos habituais de discussões sobre o tema, ganhando espaço em redes sociais e veículos de comunicação. A suposta facilidade em resolver o problema, que há muito recebe proposições de toda ordem, também pode ser destacada. Que brasiliense nunca se habilitou em propor algo para aquela travessia? Para muitos, parece não haver maiores problemas em lançar uma passarela sobre o eixo rodoviário, interromper o fluxo da via com semáforos e assim por diante.

No entanto, as soluções buscadas para esta questão – a par de outras tantas de igual importância – não estão sujeitas a relações diretas de causa e efeito, não é problema para qual se tenha apenas uma resposta (assim como todos os problemas arquitetônicos). A complexidade da equação talvez esteja no fato do próprio objeto de intervenção, os túneis e sua relação com adjacências,  estar situado numa zona de transição da cidade – e não digo apenas no sentido de movimento ou de transpor um obstáculo – mas das próprias oposições que permeiam toda a proposta de Lucio Costa para seu Plano Piloto. Este raciocínio nos leva adiante num percurso que, apesar de impreciso, pode oferecer pistas para entender a dimensão da vida pública em Brasília.

Para isso é necessário reiterar o caráter literário do relatório de Lucio,  que se move entre o tom especulativo e a descrição pormenorizada de aspectos da vida cotidiana, como se seu autor falasse aos taxistas, donas de casa, comerciantes e todos aqueles que num futuro próximo viveriam na cidade. Essa característica foi construída ao longo de sua extensa obra escrita. “No conjunto dos textos e memoriais são perceptíveis hoje saltos quase abruptos, não fosse a segurança do estilo, entre prescrições técnicas para a implantação de um conjunto habitacional e a recomendação para utilizar flores de papel nas festas populares”[1] é o que nos diz Sophia Telles, sobre essa dimensão lírica na obra do arquiteto, e indo adiante na obra do arquiteto, nos deixaríamos encantar com o fato de que “a explicação funcional do tráfego rodoviário e a descrição topográfica de trevos e taludes recebem preocupação igual à que dedica às cadeiras de lona – de cor verde – para descanso em áreas gramadas(…)”

Embora estejamos muito distantes da reorganização de convívio público demandado pelo Plano Piloto, encontramos em Brasília alguns momentos de imersão particular que se confrontam com  a totalidade do conjunto construído. A diluição da estrutura urbana aberta à especulação e ao devaneio contrasta com as demandas de funcionamento da capital numa alternância permanente. Tal característica é melhor compreendia ao se permear os espaços do Plano Piloto, quando percebemos o quão entremeadas estão as escalas da cidade, as unidades de vizinhança e toda a maneira pela qual é possível se apartar das noções gerais de movimento. É como se houvesse um “lá fora”, algo distante e imperfeito.

Ocorre que nessa troca contínua entre a amenidade e a urgência das demandas programáticas, o jogo entre aspectos concretos e as possibilidades acaba por conferir ao projeto do Plano Piloto uma vagueza que pode ser capturada em favor dos tempos e das vontades especuladas por seu autor no momento de sua concepção. Este raciocínio talvez possa ser aplicado ao caso das passarelas se pensarmos em três aspectos que desenvolveremos adiante: a) a noção de uma obra (de arte) pronta e a maneira como isso pode ou não se sustentar numa proposta urbana; b) a natureza da paisagem de Brasília; c) a própria oposição entre natureza e cultura, de como pode ser compreendida na obra do autor.

Ao visitar e exposição A Arquitetura Portuguesa no traço de Lucio Costa  pude me deparar com um conjunto significativo de desenhos que se tomados como objetos autônomos ou em conjunto, impressionam por motivos distintos. Por um lado a autonomia dos elementos arquitetônicos, por outro  o apurado acabamento das partes que se realiza tanto pelo movimento, quanto pela correta proporção dos ornamentos. Se para Le Corbusier as técnicas são a base do lirismo[2], onde o acontecimento plástico se efetua a partir de uma síntese intelectual, em Lucio Costa essa atitude será conscientemente alinhavada por um contato mais sutil com o mundo dos fenômenos, dentro de um esquema intuitivo que irá articular técnica e memória em uma meditação contemplativa das mais complexas.

Essa assimilação em Lucio Costa – de elementos arquitetônicos de um passado genuíno – ocorre gradualmente e tem tanto de disciplina quanto de despojamento. É notória sua recusa em assimilar de maneira unívoca a racionalidade europeia, o que se verifica no manejo dos atributos mais explícitos de seus edifícios. Caso das fenestrações,  invariavelmente tratadas com cuidado poético, ou a maneira desinibida com a qual define relações entre materiais , cores e texturas. Tal desenvoltura pode bem ser estendida do domínio do urbanismo, por exemplo, no Conjunto de Monlevade onde há “a feição despretensiosa dos arruamentos e calçadas, como atualizações das velhas capistranas, pois o tratamento rústico dado ao paisagismo tem por função dissolver o caráter marcadamente urbano de seus espaços.”[3]Ou mesmo na própria descrição das superquadras, onde “as quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem calçamento de qualquer espécie, nem meios fios.”[4]

Lucio tinha a postura otimista de que a técnica poderá resolver as carências da população do país, mas não se ocupa em explicar as razões históricas de nossas precariedade. Diante de uma realidade preocupante, permeia de sutilezas e ironias os memoriais que descrevem espaços concebidos com enorme carga afetiva. Esse sentido partícula, o aspecto afetivo da escolha projetual, constitui uma estética do cotidiano que está alem das construções e cuja qualidade provém, essencialmente, da indistinção entre meios e fins e não de alguma propriedade formal específica. [5]O rigor geométrico da proposta urbanística de Lucio pode ser encarada da perspectiva aérea, no caráter icônico mesmo do desenho. No trato das particularidades, existe um despojamento que relativiza esse caráter abstrato; é nessa passagem sucessiva que vamos entender como seu conjunto urbano dialoga com a paisagem.

Em 1958, quando participava de um debate sobre cidades-capitais, Lucio dá uma resposta instigante o ser questionado sobre as superquadras. Afirma que gostaria de ver o mínimo de casas ao se percorrer o conjunto urbano, que não se poderia garantir no futuro a qualidade arquitetônica dos edifícios; que a ênfase deveria ser dada ao monumental, “quase como se estivéssemos fora da cidade quando se deixa o centro.”[6]Nessa mesma discussão Lucio Costa afirma que a direção de suas experiências se dá no sentido de criar percepções simultâneas entre diferentes escalas, unidades pequenas e independentes dentro da cidade, sem deixar de contemplar escalas maiores, as áreas monumentais, o sentido de visualidade.

Podemos ir além no que se refere a essa incorporação efetiva do bucólico ao monumental  e do amortecimento do conjunto urbano na paisagem adotadas no desenho de Brasília como princípio. Na definição precisa de Ronaldo Brito, parece não haver na obra de Lucio Costa a oposição entre natureza e cultura, mas sim sua continuidade fenomenológica[7]. Para Lucio, o homem é o veículo da tecnologia escolhido pela natureza. Somos o seu lado lúcido. Daí que teremos dificuldade em pensar nas oposições formuladas pelo desenvolvimento da modernidade diante de Brasília. A própria diluição do desenho urbano tradicional deixa em aberto um conjunto de fragmentos que constituem camadas de leitura e significado que só podem ser apreendidas pelo convívio íntimo e prolongado em seus espaços abertos. Nesse sentido, a ênfase no sistema de circulação pode ser relativizada pela presença de outros elementos que possam servir como pontos convergentes de sociabilidade, ainda que seja difícil conceber esta situação, mas talvez seja essa uma das grandes contribuições do concurso para as passarelas.

Quando minha família se mudou para a Asa Norte no início da década de 1990 a coisa mais estapafúrdia era o fato das passarelas estarem todas soterradas, o que dá bem a dimensão de como a cidade (todas elas, é claro) permanece em transformação. Ainda que o problema tenha se resolvido poucos anos depois, a única possibilidade de atravessar o Eixo Rodoviário Norte na minha adolescência era por meio das passagens em níveis chamadas de tesourinhas, ou correndo entre os carros. Soma-se  a isso a situação de abandono à qual estes espaços estão sujeitos, com exceção de algumas horas do dia, em que o fluxo de trabalhadores e estudantes aumenta, chegando a gerar uma micro-economia local no primeiro turno da manhã: bolos, cafés e outros quitutes são vendidos para quem acordou muito cedo e veio de longe para uma longa jornada.

O problema da passagem sob o eixão foi se tornando ainda mais discutível na medida em que funções que se encontram em posições muito distantes entre si são supridas com dificuldades pelo transporte público. O alargamento das asas decorrente da criação de novas quadras e do desenvolvimento de centralidades criou situações limites que nos levam a pensar sobre a circulação no interior da cidade. Soma-se a isso os acidentes e atropelamentos que ocupam o noticiário.

Não quero aqui discorrer sobre a decisão do júri, que considero muitíssimo acertada. Apenas gostaria de considerar que boa parte dos projetos apresentados reforçam a pretendida correspondência funcional que Lucio Costa buscava estabelecer com a sociedade por meio de seus projetos. Existe uma ambivalência nos espaços coletivos abertos da capital que pudemos perceber nas propostas apresentadas, especialmente na vencedora, em que a permeabilidade e a conexão com as outras ambiências refletem de maneira consistente as formas de apropriação daquele lugar. Especialmente se pensarmos nas manifestações recentes que ocupam esses espaços, como o Sarau da Passagem, em que a população manifesta o interesse em ocupar as passagem a partir de uma perspectiva critica que pede sua revalorização. O redesenho desses lugares tanto quanto a inserção de equipamentos públicos poderá multiplicar as atividades que se realizam ali, sem intervir de maneira ostensiva no conjunto urbano, mantendo o caráter da paisagem, tanto quanto dos usos locais em favor do patrimônio almejado por Lucio Costa e construído por todos.

(*) Carlos Henrique de Lima é arquiteto pela FAU-UnB e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniCEUB desde 2010.


[1] TELLES, Sophia. In Lucio Costa, um modo de ser moderno. São Paulo: Cosac Naify, 2002, p.

[2] CORBUSIER. Precisões. Sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

[3] WISNIK, Guilherme. Lucio Costa entre o empenho e a reserva. In: Lucio Costa, São Paulo: Cosac Naify, 2001, p. 29. Cf. Sophia Telles, “Lucio Costa: monumentalidade e intimismo, Novos Estudos 25, São Paulo, CEBRAP, 1989, p.92.

[4] Lucio Costa. Relatório do Plano Piloto de Brasília. In Lucio Costa, Registro de uma Vivência, São Paulo: Empresa das Artes.

[5] TELLES, Sophia. Utilidade Lírica.  In Lucio Costa, um modo de ser moderno. São Paulo: Cosac Naify, 2002. p

[6] COSTA, Lucio. Cidades-Capital. In XAVIER, Alberto (org.). Debate realizado entre Lucio Costa, Arthur Korn, Dennys Lasdun e Peter Smithson. Architectural Design, nov. 1958.
Ver Sophia Telles, Op. Cit. 195-196, In Textos fundamentais sobre história da arquitetua moderna brasileira, parte1. Guerra, Abilio (org). São Paulo: Romano Guerra, 2010.

[7] BRITO, Ronaldo. Fluida Modernidade. In Lucio Costa. Um modo de Ser Moderno. NOBRE, Ana Luiza [et. at]. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

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