por Izabel Amaral (*)

Pavilhão do Canadá, Expo 1970 Osaka – Projeto de Arthur Erickson e Geoffrey Massey, desenho da primeira fase do concurso, projeto vencedor.

Se você tivesse que escolher entre um estágio no escritório de Rem Koolhaas ou uma bolsa para passar um ano viajando pelo mundo, o que você faria? Pense. Qual das duas opções lhe traria mais conhecimento e visibilidade profissional? Arthur Erickson  preferiu a segunda opção.

Vamos voltar no tempo. Nascido em 1924, o arquiteto canadense Arthur Erickson  chegou a ser convidado para trabalhar com Frank Lloyd Wright. Mas escolheu viajar pelo mundo, recusando assim uma tão honrada proposta. Faleceu no dia 21 de maio de 2009, e foi o maior nome da produção moderna canadense. Deixou, de um lado, o sentimento de perder um grande profissional, e de outro lado, deixou o reconforto de um importante legado arquitetônico de mais de cinqüenta anos de carreira, e o consolo de saber que foi na tranqüilidade de sua residência na sua cidade natal Vancouver,  que ele viveu seus últimos dias, e que se foi em paz aos 84 anos de idade. Havia se aposentado há apenas quatro anos, embora fosse consultor do escritório que hoje ainda leva seu nome.

Adolescente, gostava de pintar, e até chegou a expor algumas de suas primeiras obras em pastel na Galeria de arte de Vancouver quando tinha dezesseis anos. Em 1942, a pedido do seu pai, alistou-se às forças armadas canadenses, onde começou a estudar engenharia, para em seguida estudar a língua japonesa e participar de missões táticas na Índia, Malásia, e Japão. Após os bombardeios ao Japão, ficou a cargo de rádio de Kuala Lumpur. Ao fim da guerra, Erickson retomou os estudos em Vancouver, visando a princípio uma sua carreira de diplomata, mas decidiu estudar arquitetura ao conhecer o trabalho de Frank Lloyd Wright numa revista. Partiu então para Montreal, onde estudou na universidade McGill, curso que criticou por se basear demasiadamente no método da Bauhaus, e não procurar desenvolver no aluno a sensibilidade em relação ao lugar.

Foi após formado que Erickson visitou Frank Lloyd Wright, quando recebeu a proposta de ficar um ano em Taliesin, mas preferiu aceitar uma bolsa de viagens da McGill, e partiu em 1950, para visitar Egito, Líbano, Espanha, Grécia, Itália e a boa parte da Europa. Conseguiu, com o dinheiro previsto para um ano, viajar por três. E ao fim da viagem, trabalhou por um ano em Londres, antes de retornar a Vancouver, onde estabeleceu-se como profissional praticante. O primeiro momento importante da sua carreira foi em 1963, quando, em parceria com Geoffrey Massey, participou sem grandes pretensões do concurso para a o complexo de construções da Universidade Simon Fraser, fazendo uma proposta que ia contra o regulamento. Ganhou o concurso, que trouxe sucesso e reconhecimento a sua firma. Neste projeto, em vez de edifícios departamentais isolados, os arquitetos propuseram um complexo de múltiplos volumes em concreto armado interconectados entre si, uma verdadeira mega-estrutura integrada ao relevo montanhoso do terreno. A parceria com Massey durou até 1972, e estendeu-se de projetos residenciais, a projetos governamentais, culturais e comerciais.

Simon Fraser University, Burnaby. Projeto de Arthur Erickson e Geoffrey Massey, premiado em concurso, realizado em 1963. Foto da autora.

Erickson e Massey projetaram juntos o pavilhão federal e o pavilhão do Homem na comunidade, na célebre exposição internacional de 1967 em Montreal, e  ganharam o concorrido concurso para o pavilhão canadense na Expo 1970 em Osaka. Os volumes piramidais deste último pavilhão, completamente recobertos de espelhos pelo exterior, ao mesmo tempo em que representavam as montanhas canadenses, refletiam o céu, mostrando também o movimento contínuo das nuvens. O uso dos espelhos foi uma lição que Erickson aprendera nas suas viagens, ao visitar um jardim iraniano. Além disso, o arquiteto sabia que a cultura japonesa sendo ligada à terra, dá pouca importância simbólica ao céu; assim, com seu pavilhão espelhado, ele trazia aos japoneses um elemento importante da cultura ocidental. Apesar de ser pouco lembrado hoje em dia, este foi um dos pavilhões mais admirados na época e fez-se presente na maior parte das capas de catálogos desta exposição.

Pavilhão do Canadá, Expo 1967 Montreal. Projeto de Arthur Erickson e Geoffrey Massey. Cartão postal da época.

Na sua longa carreira, com escritórios em diversas cidades, e produção tanto na América do Norte quanto no Oriente Médio, Erickson foi diversas vezes à falência, contraiu dívidas, abriu e fechou diversas firmas. O talento que tinha como gestor dos negócios em nada se equiparava ao talento que tinha para o projeto arquitetônico. Mas esse talento devia-se na verdade ao grande empenho com que se dedicava a cada projeto, às quantidades monstruosas de papel manteiga, para fazer e refazer os desenhos, procurando melhorar o projeto em cada um dos seus domínios, seja espacial, funcional ou construtivo, do geral ao detalhe. Tal é o caso do projeto para o pavilhão de Osaka, onde o arquiteto e sua equipe, durante três longos anos, acumularam mais de mil e quinhentas folhas de desenhos, e incontáveis páginas de documentos textuais.

Pavilhão do Canadá, Expo 1970 Osaka – Projeto de Arthur Erickson e Geoffrey Massey, vencedor do concurso. Foto da época.

Vindo de uma tradição de arquitetura que muito utiliza a madeira, que é a tradição da costa oeste canadense, Erickson sabia também fazer poesia com o concreto armado. Mas utilizava o concreto não pela sua plasticidade, mas como a madeira, pela possibilidade de criação de peças articuladas. E não articulava apenas componentes construtivos, sabia também articular técnica com tradição, como nos pórticos em concreto aparente do Museu de Antropologia de Vancouver, que retomam o sistema construtivo em madeira dos índios locais.

Muitos de seus projetos possuem uma escala tão grande que praticamente chega a ser geográfica, mas que buscam mesmo assim um diálogo sensível com a paisagem natural, como nas universidades Simon Fraser e Lethbridge, mega-estruturas inseridas em relevos montanhosos. Mas o sentido de mega-estrutura, e a dimensão geográfica, também se refletiam em projetos urbanos, como no caso da Robson Square e Law Courts em Vancouver, que integra-se ao contexto urbano, misturando edifício com praça pública. Este projeto, cuja concepção começou em 1973, e cuja construção terminou em 1980, em nada se distancia dos princípios modernistas. No entanto, esse período não coincide exatamente a revisão e a crise do modernismo? Mas que crise? Não seria essa uma invenção da própria historiografia da arquitetura, que muito colocou em destaque as contribuições de Venturi e Rossi?

Robson Square e Law Courts, Vancouver. Projeto de Arthur Erickson. Foto da autora.

UBC Museum of Anthropology, Vancouver. Projeto de Arthur Erickson. Foto da autora.

Enfim, a obra de Erickson atesta, como aquela de muitos brasileiros da mesma geração, que não houve exaustão do modernismo, mas reinvenção e continuidade, deixando um passado recente de obras exemplares, ainda que dentro de um contexto não hegemônico. Erickson deixa uma obra que testemunha que, em países como o Canadá, o Brasil e o Japão, como bem mostra a historiografia da arquitetura, a continuidade do movimento moderno, para o bem ou para o mal, com ou sem críticas, é uma realidade presente.

Arthur Erickson ganhou a medalha de ouro do American Institute of Architects em 1986, entre as muitas premiações nacionais e internacionais que acumulou. Seus arquivos estão atualmente guardados no Canadian Architectural Archives, na cidade de Calgary, no Centro canadense de arquitetura e na universidade McGill, em Montreal. Este arquiteto, que nunca foi uma unanimidade, deixa-nos a lição de que para aprender a fazer boa arquitetura é preciso fazer boas escolhas, ser perseverante, ter um olhar sensível, e sobretudo ter coragem

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(*) a autora é arquiteta e urbanista (UFPE, 2000), tem mestrado em História e teoria da arquitetura (PPGAU-UFRN, 2004), é doutoranda no programa de Ph.D. em Aménagement da Universidade de Montreal, Canadá, bolsista da CAPES, e assistente de pesquisa no LEAP– Laboratoire d’étude de l’architecture potentielle.

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