3° lugar – Zemel + Chalabi Arquitetos – Eduardo Chalabi, Paula Zemel Pompeu de Toledo, Ricardo Ariza Miyabara e Carolina Laiate

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Extrato do Memorial Descritivo

A partir da premissa do concurso, em instalar o planetário sobre um espelho dágua , nos veio em mente uma imagem muito contundente: uma esfera submergindo da água. Uma idéia um pouco paradoxal no lugar comum nas instalações de um planetário, onde a cúpula da sala de projeções está sempre exposta. Mas com uma situação tão desafiadora e por que não dizer, tentadora, nos arriscamos em fazer algo diferente. Mas como fazer um planetário onde a sala de projeções é uma esfera sobre a água? E o programa de apoio, onde estaria? Com esse desafio a ser perseguido, começamos nossa jornada.

Partimos então da sala de projeções como centro do nosso microcosmo. E como se fossem satélites girando em órbita do nosso pequeno planeta submerso, distribuímos o programa de apoio. A forma da sala já estava previamente dada, uma meia esfera com diâmetro e número de assentos definidos. Partimos então para o tipo de sala que esses dados nos permitiam realizar. Para que se pudesse implantar o programa de apoio sobre a água deveríamos elevar o edifício acima da cota de acesso, assim a melhor forma da sala seria o tipo arena com inclinação de 30º,assim poderíamos ingressar na cota alta e descer até tocar a água. Com isso estabelecemos a cota de piso 1m acima do nível dágua, e a esfera estaria exatamente cortada ao meio, parte dela fora e outra parte dentro d´água.

O desafio seguinte seria distribuir o programa de apoio de uma maneira que este interferisse o mínimo possível. Quase como se não tocasse na esfera. Assim nós “afastamos” o edifício de apoio tratando-o de forma diferente. Enquanto a esfera deveria ser totalmente opaca, pelo seu uso específico, o programa que a circundava deveria ser transparente. Enquanto ela estivesse submersa o edifício de apoio estaria flutuando. Assim em volta da esfera com seus 12 m de diâmetro criamos um edifício com 36m de diâmetro, mas internamente com vãos diferentes, de 3 a 6m, formando então uma elipse, que afastada da esfera cria uma praça interna de água delimitando assim os dois programas distintos.

Com partido definido, distribuímos no “edifício satélite” o programa de apoio. O acesso se faz por uma passarela que parte de uma praça lindeira a Av. Maria José Oliveira, chegando a uma varanda onde de um lado encontra-se o grande salão de espera, exposições e festas e do outro, com uma circulação livre o restante do programa, de um lado a população flutuante do outro a população fixa com seus usos específicos. Esses dois caminhos se encontram em outra varanda, igual e oposta a de acesso, onde se encontra a lanchonete, o foyer, e uma passarela de acesso à sala de projeções. Do lado do programa “fixo” tem-se o acesso à cobertura, tratada aqui como praça de observação astronômica ou apenas uma extensão natural do parque onde o edifício está inserido.

Orientando a passarela de acesso alinhada ao norte passamos a tratar o edifício em si, como um observatório, criando em sua praça de acesso um relógio solar e desenhando o programa como os pontos cardeais. Assim locamos a entrada no vértice da lagoa, conectando o parque que se desenvolve ao longo da BR-364. Esta orientação também nos permite usufruir os ventos dominantes que vem na direção nordeste, minimizando, portanto, o calor e umidade. Também torna possível abrir as fachadas em grandes panos de vidros protegidos por brises verticais, ganhando luz, sem ganhar calor, minimizando uso do ar condicionado.diminuindo o gasto de energia. Junto a esses sistemas a cobertura elevada em deck de madeira, também contribui ao permitir um sombreamento com ventilação permanente.

A eco-eficiência do edifício proposto está intimamente ligado ao sistema construtivo projetado, que pretende utilizar mão de obra e matéria prima locais, reduzindo assim o impacto ambiental e custo gerado pelo transporte de materiais, assim como a geração de oportunidade de trabalho para a população local. O sistema consiste em fundação em concreto tipo estaca pré-moldada, pilares em concreto que formam o anel externo ao planetário, e sobre eles, uma viga também em concreto moldado in loco com forma metálica re-aproveitável para execução de toda extensão da viga. Sobre este sistema, vigas de madeira com seção variável na mesma modulação dos brises, também em madeira que funcionam não só para sombreamento, mas aqui tem função de pilares. Sobre as vigas em madeira, piso em compensado, sendo o da cobertura impermeabilizado. Sobre a laje de cobertura, um sistema de deck elevado por onde passam as tubulações de água para o sistema de ar condicionado, de hidráulica e elétrica. O edifício foi projetado para não ter manutenção. As peças de madeira, sempre delgadas, são peças baratas e garantem a facilidade de serem encontradas, e propõe-se a execução de alguns brises extras que podem ser estocados caso haja necessidade de substituição.

Os sistemas de instalações foram criados a partir da leitura do entorno onde o edifício está inserido. O sistema de ar condicionado proposto, é do tipo água gelada com chiller de condensação a água, utilizando a água disponível na lagoa para resfriamento do sistema. O resfriamento da água da lagoa por sua vez, se faz através de aspersão por chafariz. O chiller localizado sob a platéia, que através de bombeamento leva água para os fan coils localizados nos ambientes que distribuem por dutos e grelhas. Para o telescópio foi previsto também um sistema independente do tipo split sistem. para funcionamento noturno, eventual reserva, e controle de umidade.

A água da lagoa também é usada nas instalações hidráulicas, pois apenas a água potável é consumida da rede pública. O esgoto resultante é tratado em estações de tratamento de esgoto e depois de água localizadas sob a platéia, é re-aproveitada para o reservatório de água não potável, para alimentação das torneiras de jardim e de lavagem e descargas sanitárias. As águas da chuva recolhidas, voltam à lagoa, e passam por sistema composto por filtro de areia e dosador de cloro, reabastecendo o reservatório de água não potável. A água excedente já tratada, é jogada para a sarjeta.

O paisagismo conta sobretudo com o plantio de árvores nativas tais como o Buriti, Açaí, Araçairana, entre outras, e a criação de massas de Igarapés, Vitórias Régias e Bananas D´água no intuito de engrandecer a paisagem ,mas também funcionando como filtro para a lagoa. O passeio que acompanha a paisagem construída revela a passagem do tempo e a maneira como nós nos relacionamos com o ambiente que está a nossa volta . Nesse pequeno microcosmo encontramos a mata virgem , o parque, e agora um edifício implantado sobre uma lagoa artificial que re-conecta todos os sistemas do qual fazemos parte, estética e ambientalmente.

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Fonte: autores do projeto