VII BIAU – Resultado da seleção das obras brasileiras

A Comissão de seleção responsável pela escolha das 10 obras construídas que representarão o Brasil na VII Bienal Iberoamericana de Arquitetura – formada pelos arquitetos Abilio Guerra (delegado brasileiro), Ana Luiza Nobre, Andrey Rosenthal Schlee, Carlos Eduardo Dias Comas, Fabio Duarte, Luciana Guimarães Teixeira, Maria Isabel Villac, Sonia Marques e Vanessa Borges Brasileiro divulgou, no último dia 28 de março de 2010, a lista final das obras selecionadas.

Veja a seguir imagens das obras selecionadas (em ordem alfabética do nome do projeto) e comentários da comissão de seleção:

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Biblioteca São Paulo – São Paulo – SP

Aflalo & Gasperini Arquitetos – Gian Carlo Gasperini, Roberto Aflalo Filho e Luiz Felipe Aflalo Herman

“A Biblioteca São Paulo está inserida em um grande complexo esportivo e de lazer que foi implantado em área anteriormente ocupada por um dos maiores presídios do país, o Complexo Presidiário do Carandiru. Fruto de um concurso de ideias de arquitetura, o atual Parque da Juventude abriga em suas áreas livres, aonde se alternam arvoredos e descampados, equipamentos diversos. A nova biblioteca está implantada em local adequado, em uma das margens, com grande proximidade a uma estação de metrô, portanto com acesso facilitado em escala metropolitana. O edifício em si é um prisma ortogonal, conta com acesso em seus quatro lados, permitindo uma grande articulação com as áreas livres do parque, e é vazado na face superior por iluminação zenital, solução adequada ao programa por proteger o acervo e permitir maior flexibilidade no agenciamento do programa em planta. Parte de sua área é destinada a usos mais descontraídos (bar, estar etc.), ajustando-se ao programa geral do parque que o abriga.”

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Box House – São Paulo – SP

Yuri Vital

“A obra Box House, do jovem arquiteto Yuri Vital, alia uma arquitetura de qualidade à problemática proposta pelo tema “Arquitetura para a integração cidadã”. O projeto propõe uma unidade residencial com uma área exígua de 46,00 m², com um programa diversificado e uma espacialidade percebida como generosa. O partido sugere ambientes integrados com racionalização máxima das áreas de circulação e a decisão por incluir garagem e terraço, a primeira recuada e a segunda que se projeta em balanço, proporciona privacidade à área social da casa e dinamiza o espaço e o volume. É ainda uma qualidade do projeto o resgate da implantação em “vila inglesa”, tipologia habitacional em desuso no Brasil, mas que garante uma boa densidade aliada ao baixo impacto do conjunto construído. Opção que permite sua adequação às cotas do terreno que, aliada a uma volumetria definida por sólidos rigorosos e regulares e por planos de cores, traduz uma estética moderna e erudita, além de propiciar um cotidiano comunitário, afastando-se dos modelos de pobreza imperantes nas tipologias usuais normatizadas pelas iniciativas do poder público. Em sentido mais geral, do ponto de vista de sua inserção social, trata-se também de uma novidade no contexto brasileiro aonde impera há décadas a atuação exclusiva do poder público na temática da habitação de interesse social, marcando o retorno da iniciativa privada na construção e comercialização de habitação de baixo custo.”

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Casa em Ubatuba

SPBR Arquitetos / Angelo Bucci

“O projeto residencial de Angelo Bucci faz parte de uma longa genealogia do morar brasileiro, que remonta ao menos até Lúcio Costa, que propôs a acomodação entre princípios modernos e a natureza exuberante do Brasil. A relação harmoniosa entre o artefato arquitetônico civilizatório e a ambiência natural envoltória preservada é ponto de partida de uma solução que hoje é identificada como ecológica, mas que tem, na história da arquitetura brasileira, um comprometimento com uma certa forma específica de habitar o território. Como muitas anteriores – projetadas por arquitetos diversos, mas com destaque para Affonso Reidy, Lina Bo Bardi e Marcos Acayaba – esta casa equilibra-se em estrutura delgada que se apóia no terreno natural em declive, estratégia de implantação que permite a convivência das áreas internas com as copas das árvores. Neste caso específico, o sobrevôo da edificação é garantida por três únicos pilares de concreto, reduzindo-se ao mínimo o contato com o chão. O concreto predomina na estruturação do conjunto, na forma de vigas lajes e anteparos, dispostos de tal forma que ocorra, ao mesmo tempo, a separação dos usos e uma grande articulação espacial, com a ocorrência de diversas varandas, que ampliam a sensação de integração com o meio ambiente. São engenhosas também as soluções simplificadas de necessidades programáticas e de proteção solar, garantidas pela manipulação inventiva da estrutura – piscina na cobertura apoiada no pilar central, que também sustenta a escada helicoidal; o grande protetor solar em forma de aba na face que se abre para a paisagem; a suspensão das lajes, sustentadas pelas vigas superiores. Engenhosidade estrutural a serviço do baixo impacto na natureza.”

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Centro Educativo Burle Marx – Inhotim – MG

Arquitetos Associados – Alexandre Brasil, Paula Zasnicoff Cardoso

“O Centro Educativo Burle Marx faz parte do complexo museológico do Inhotim, reconhecido por agregar significativo acervo de arte contemporânea, imerso em amplos jardins também elaborados para abrigar a produção artística brasileira. O mais recente pavilhão construído, de autoria de Alexandre Brasil Garcia e Paula Zasnicoff Cardoso (Arquitetos Associados), integra-se à paisagem do complexo de maneira fluida e educativa, apresentando aos visitantes os possíveis percursos e atividades a serem explorados em toda a área. A opção em gerar um imenso espelho d’água sobre o edifício contribui para a sua mimetização na paisagem, em um processo de desconstrução da matéria que aponta para o acervo paisagístico abrigado no complexo. Internamente, as áreas funcionais – biblioteca, auditório, ateliês e administração – também se organizam de maneira a incorporar a paisagem. Refletem, ainda, o potencial de tecnologias há muito praticadas (lajes nervuradas), ali exploradas racionalmente e dispostas a serviço da intenção de integração ao meio. Contudo, é na relação com a paisagem, em justa homenagem ao artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx, que reside o maior potencial do projeto: o Centro Educativo Burle Marx revela o quanto as novas gerações de arquitetos brasileiros alimentaram-se das fontes que os antecederam, multiplicando os ensinamentos em novas linguagens e experiências espaciais.”

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Edifício Aimberê

Andrade Morettin Arquitetos Associados – Vinicius Andrade e Marcelo Morettin

“Na contramão dos atuais edifícios residenciais (verdadeiros ghettos, clubes fechados refratários à cidade) o Aimberê, em um terreno exíguo, retoma a implantação do diálogo civilizado entre espaço privado e coletivo, entre casa e rua, oferecendo o jardim de entrada, o respiro, espaço generoso de transição a cidade. Modulação e encaixes buscando a flexibilidade e diversidade das unidades – contribuições chaves de arquitetos como Alexander Klein (1927), Le Corbusier (Cité Radieuse,1947), Niemeyer (Copan,1951) entre outros, e sobretudo Safdie pela flexibilidade da cozinha e banheiro (Habitat, 1967) – são aqui atualizados. A exemplo de Christian de Portzamparc (Hautes Formes, 1975) a diversidade é revelada na fenestração. Ela resulta de uma composição na qual balanços e evidências estruturais são minoritários em prol da subtração volumétrica e de um forte contraste da ortogonalidade mediante um plano inclinado, que não é gesto gratuito, repercutindo em diferentes níveis de iluminação nos espaços internos conforme o pavimento do edifício. Trata-se de um projeto que alia simplicidade e sofisticação, que reabilita a arquitetura como solução para a moradia coletiva nos grandes centros urbanos, na contracorrente da hegemonia atual de construções voltadas para a exclusão e mercado imobiliário.”

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Hospital Sarah-Rio – Rio de Janeiro – RJ

João Filgueiras Lima – Lelé

“O Hospital Sarah do Rio de Janeiro é o último de uma dezena de hospitais públicos implantados em várias capitais brasileiras (Salvador, Brasília, São Luís, Belo Horizonte, Fortaleza, Macapá e Belém). As unidades – todas projetadas pelo arquiteto João Filgueiras Lima – constituem uma rede pública de hospitais especializados em doenças do aparelho locomotor, a ser estendida gradualmente a todo o território nacional. As ondas da cobertura – resultantes dos estudos de conforto térmico e ambiental – constituem uma cobertura independente que se sobrepõe e protege uma cobertura secundária, em arco, só visível internamente. A preocupação central foi estimular o restabelecimento dos pacientes por meio de soluções arquitetônicas que priorizam a ventilação e a iluminação naturais e buscam promover a integração das áreas de tratamento e internação com espaços verdes e abertos. Trata-se de um sistema bastante engenhoso, que descarta o hermetismo dos interiores climatizados e articula-se com jardins internos e dispositivos de climatização passivos, como nebulizadores localizados nos espelhos d’água, e farta luz natural, garantida pelo uso de policabornato translúcido nos arcos retráteis da cobertura interna. O fio condutor deste projeto corresponde à adequação dos princípios de padronização, flexibilidade, economia e rapidez na construção às condições tecnológicas, sócio-econômicas e ambientais locais. Sedimenta-se aqui uma pesquisa estética pautada por uma concepção de forma “aberta”, aderente a uma lógica processual. Destaca-se também a organização e gerenciamento de todos os fatores ligados à cadeia de produção (produção das peças na usina, transporte e montagem no canteiro), que caracterizam a obra do arquiteto.”

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Memorial da Imigração Japonesa – Belo Horizonte – MG

Gustavo Penna Arquiteto & Associados

“A abordagem do arquiteto Gustavo Penna para o programa do museu-monumento, que tematiza a amizade entre o Japão e o Estado de Minas Gerais, é carregado de simbolismos e alusões poéticas. O projeto é uma ponte sobre um espelho d’água que, segundo o arquiteto, “liga metaforicamente territórios, tempos, idéias e ideiais”. Com forma sintética e plasticidade orgânica, o projeto liga-se de forma consciente ao universo formal de Oscar Niemeyer. Um cilindro fechado por paredes opacas – iluminado zenitalmente e disposto sobre o espelho d’água – é o centro da composição. Duas rampas-pontes em arco, dispostas uma de cada lado do cilindro, têm a dupla função de acesso e de sustentação do conjunto, garantindo a levitação do volume, que se reflete nas águas do pequeno lago artificial. A cor branca imperante contrasta de sobremaneira com o brilho do lago e com o verde do gramado e do arvoredo, conferindo ao conjunto um estatuto intermediário entre arquitetura e instalação artística.”

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Museu do Pão – Moinho Colognese – Ilópolis – RS

Brasil Arquitetura – Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz

“O projeto é a conversão de antigo moinho na cidade de Ilópolis no Museu do Pão. A cidade se localiza no Vale do Alto Taquari, no Rio Grande do Sul, região colonizada por imigrantes italianos, que começaram a chegar ao Estado no final do século 19. O projeto arquitetônico visa articular a preservação de elementos da cultura italiana – restauro do antigo moinho Colognese, integralmente construído em madeira – e a introdução de elementos contemporâneos – inserção de dois novos edifícios destinados à exposição e escola de panificação, construídos com técnicas atuais, com predomínio do concreto armado e elevados do solo por meio de estrutura exposta, em claro alinhamento com a chamada “Escola Paulista”. Os novos edifícios se articulam ao antigo por meio de passarelas, cujas características tipológicas e construtivas celebram formas arquitetônicas recorrentes na localidade. Este projeto insere-se na discussão sobre intervenções em edificações de interesse histórico e filia-se de forma categórica na linhagem de Lina Bo Bardi, aonde a preocupação com a preservação equilibra-se com a invenção. O projeto de restauro e revitalização é ainda a alavanca para o “Caminho dos Moinhos”, roteiro turístico-arquitetônico proposto pelos arquitetos e que englobará outros moinhos da região, abrindo a possibilidade de entrada de recursos econômicos nas cidades envolvidas.”

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Praça Victor Civita – São Paulo – SP

Adriana Blay Levisky e Anna Julia Dietzsch

“Um dos temas em maior evidência no urbanismo dos últimos cinquenta anos é o trato com o patrimônio industrial presente em grandes centros urbanos. Normalmente o objeto desta discussão é o patrimônio arquitetônico. Porém, há um outro traço da presença industrial, por menos visível, pouco discutível: extensas áreas urbanas que dificilmente podem ser reconvertidas para outros usos pois a atividade industrial contaminou o solo de modo a tornar perigosa a ocupação humana. Agora imagine ocupar uma tal área transformando-a em um parque – e ainda mais em um parque cuja temática é a sustentabilidade, a valorização da integração entre as atividades urbanas e o meio ambiente natural. Este é o fundamento do projeto da Praça Victor Civita, em São Paulo, construída sobre área de 130 mil m² em São Paulo. Para que o contato com o solo contaminado fosse mínimo, as arquitetas Anna Julia Dietzch e Adriana Levisky e equipe construíram a praça como um grande deck de madeira certificada suspenso do solo sobre estrutura metálica. Os espaços criados destinam-se a conhecimentos sobre temas ligados à sustentabilidade, desde que cultivo de orgânico de alimentos à polêmica engenharia genética, passando pelo reuso das águas servidas – tecnologia utilizada na própria praça. As características de um projeto auto-sustentável ambientalmente construído em uma antiga área industrial condenada em um grande centro urbano fazem deste projeto um bom exemplo dos desafios contemporâneos da criação de espaços públicos nas cidades.”

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Sede da Fundação Iberê Camargo – Porto Alegre – RS

Álvaro Siza Vieira

“Plenamente consciente da tradição moderna, e dentro dela, do legado da arquitetura moderna brasileira e de seus museus exemplares, Álvaro Siza Vieira combina magistralmente em Porto Alegre a opção por fragmento do tipo de átrio central, com as galerias em L, e a exploração original da circulação em rampas num torreão compacto, articulado via um átrio ao ar livre com a ala baixa que compreende os serviços e as oficinas do museu. Siza extrai o máximo de um sítio complexo, de grande potencial em função da sua visibilidade e posição estratégica num vazio verde entre a área central e os subúrbios residenciais ao sul, mas também com grandes problemas de acessibilidade, ruído e ofuscamento, dada sua orientação a oeste, o tamanho reduzido e a vizinhança com avenida expressa. Esplêndida peça de desenho urbano, o museu é ao mesmo tempo marco e pivô, articulando um setor de urbanização até então dispersa e propiciando uma nova visão sobre a cidade a partir de suas aberturas, aparentemente mínimas desde o exterior, mas surpreendentemente generosas desde dentro. A espacialidade e a materialidade são cuidadas como seria de esperar do arquiteto, beneficiando de uma construção impecável conduzida por equipe nacional. A muscularidade da obra é nova e nunca foi tão forte a ambivalência, manifesta na erosão para o átrio das galerias sob outros aspectos tradicionais, no contraste sábio e inesperado entre opacidade e transparência, na manipulação de episódios verticais e estratificação horizontal, prestando homenagem, de maneira sutil, ao melhor da tradição brasileira vista nas obras de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha.”

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Fonte: Delegado BIAU / São Paulo SP Brasil

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