Entrevista – Gilson Paranhos

Nesta edição da seção entrevistas do portal concursosdeprojeto.org, entrevistamos o arquiteto Gilson Paranhos, Presidente Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (Gestão 2010/2012). Nascido  em Pedregulho – SP, transferiu-se para Brasilia em 1970. Formado em dezembro de 1980 pela Universidade de Brasília – FAU-UnB, iniciou sua vida profissional no escritório do arquiteto Milton Ramos e posteriormente, com o arquiteto João Filgueiras Lima (Lelé), acompanhou as pesquisas de argamassa armada em Abadiânia GO e em diversos outros projetos. Entre diversos prêmios destaca-se o premio da Bienal de Arquitetura de Brasília em 1998. Foi presidente do IAB/DF (2000/2001) e tem atuado na Direção Nacional do IAB (Conselheiro, Coordenador Nacional de Concursos, Secretário Geral, Diretor Executivo) em diversas gestões, desde 2002.

1. Qual o lugar do tema Concursos em sua gestão do IAB ?

Penso que a alteração no sistema de contratação de projetos no Brasil é a “âncora” que nos permitirá fazer com que a qualidade da arquitetura brasileira possa melhorar. A  obrigatoriedade do  concurso publico de projetos é sem dúvida o caminho inicial, pois com seu resultado positivo a arquitetura privada acompanhará. Assim, temos que colocar esse assunto como “prioridade zero” de nossa gestão.

2. Pra você, quais são as principais dificuldades dos concursos organizados atualmente ? Há vícios que devem ser corrigidos?

Acredito que é uma questão de aprendizado. Quando falamos de IAB estamos falando de um grupo de arquitetos abnegados que estão lá dentro tentando acertar. Esse fato não nos impede de fazermos uma avaliação crítica de nossas ações. Uma das questões é a autonomia dos departamentos que muitas vezes causa alguns problemas e a questão dos concursos é uma delas. A dimensão de nosso país traz particularidades regionais que às vezes dificultam a uniformização de procedimentos em todo o nosso território. Assim, quando tratamos de questões nacionais como os concursos esses problemas vêm à tona com maior intensidade. Outra questão é que o IAB até há muito pouco tempo enxergava os concursos como uma das únicas fontes de renda para sua sustentabilidade o que deve ser considerado um equívoco. O cliente de um concurso não é diferente de qualquer outro, que tem necessidades em uma prestação de serviços e que exige sua participação efetiva no processo. Existem outras questões que considero sérias como a necessária profissionalização na organização dos concursos e a criação de uma cultura de formação de quadros preparados para a promoção e organização de concursos na administração pública.

3. Temos repetido aqui no portal algumas estatísticas, que nos ajudam a perceber diferenças culturais entre alguns países e seu reflexo na cultura arquitetônica: na França são realizados 1200 concursos por ano, na Suiça, cerca de 200, e no Brasil, 10 concursos anuais em média. O que você nos diz desses números?

Creio ser o reflexo de realidades políticas e culturais que dependendo da região nos apresentam esses resultados. A contratação de projetos por meio de concursos pode ser um instrumento para a melhoria da qualidade da arquitetura como tem feito a França e diversos países europeus. Essa mesma contratação, quando realizada sem concursos, corre o risco de ser utilizada como ferramenta de corrupção e favorecimentos pessoais, como algumas vezes tem acontecido em alguns países da América.  A simples ignorância no que diz respeito a seus valores e consequências faz com que os arquitetos não lutem por essas importantes questões. Muitas vezes valores culturais fazem com que a tradição de realizar concursos esteja associada à própria cultura arquitetônica, como é o caso da Finlândia e demais países escandinavos, por exemplo. Em outras palavras, a promoção dos concursos é também uma forma de promoção da cultura arquitetônica na sociedade. Agora é hora de dar mais vigor a essa antiga luta dos arquitetos brasileiros, esclarecendo a sociedade e alterando essa realidade.

4. Você acha que o IAB é a única instituição habilitada a realizar concursos no Brasil?

Não. Penso que esse é um dos grandes equívocos de nossa atuação. A prefeitura do interior de qualquer estado tem que realizar seus concursos de projetos arquitetônicos para quaisquer edificações ou objeto público. Defendo concursos públicos até para mobiliário urbano como abrigos de ônibus e bancos de praças. É um direito da população brasileira o de utilizar seus equipamentos executados com a melhor qualidade possível e essa qualidade não é uma prerrogativa apenas dos palácios ou grandes obras. Se tivermos 4000 projetos públicos no país temos que ter 4000 concursos públicos em um só ano. O IAB atualmente organiza mais de 90% dos concursos promovidos no Brasil por que o Concurso ainda é um sistema de exceção. Precisamos socializar ao máximo esse conhecimento adquirido ao longo dos 90 anos de história da instituição e preparar a Administração Pública para transformar o concurso em um instrumento cotidiano.

5. Temos destacado aqui no portal a importância de uma ‘Política pela Qualidade da Arquitetura Pública’, nos moldes do que tem feito a França e a Europa em geral, desde os anos 70. Qual seria o papel do IAB nessa Política?

Penso que somos os principais responsáveis por levar essas informações aos nossos governantes, homens públicos, cidadãos e a sociedade em geral pela certeza que temos de seu resultado. Nosso papel é de multiplicador dessas informações em todos os meios e de assessoramento dos órgãos públicos na medida de suas necessidades.

6. No contexto internacional o Brasil tem aparecido como ‘a bola da vez’ (e não é apenas um trocadilho com a Copa 2014). O país tem sido citado como um pólo de desenvolvimento e de oportunidades. Por outro lado, parece que a Qualidade da Arquitetura e dos Espaços Públicos, não tem se destacado na citada ‘agenda do desenvolvimento’. Perguntamos: ainda existe espaço para a Arquitetura e os Arquitetos nessa Agenda Pública?

Acabo de chegar de uma reunião com os países da América e de um posterior seminário na Europa. Não tenho dúvidas de que o Brasil é a bola da vez e dependerá muito de nós brasileiros definirmos o futuro que queremos. Recai sobre o IAB muita responsabilidade e atitudes a serem tomadas com muita agilidade. No entanto, jamais conseguiremos dar essas respostas sem o apoio e a participação direta dos arquitetos brasileiros.   Para que a Arquitetura e o Urbanismo sejam inseridos na agenda pública de nosso país é preciso também que os arquitetos e urbanistas estejam a serviço da sociedade e do interesse coletivo e para isso é preciso haver instrumentos de contratação transparentes e democráticos, como é o caso dos Concursos e da Lei de Assistência Técnica.

7. Copa 2014, Olimpíadas 2016. Dois grandes eventos, bilhões em investimentos. E a contratação dos projetos para esses empreendimentos? E os Concursos?

Conseguimos chamar a atenção do Comitê Olímpico Brasileiro recentemente e parece-nos que farão concursos públicos de projetos. Como nos pronunciamos em nota oficial há algum tempo, muita preocupação existe por parte do IAB sobre todas essas ações. Os estádios da COPA infelizmente não estão sendo escolhidos através de concursos públicos, e corremos o risco de ver enormes equívocos em termos de projetos, obras e sobre a inserção desses equipamentos na estrutura urbana das cidades.

8. Que experiências recentes (ou em andamento) você destacaria, de iniciativa do IAB, na organização ou debates sobre concursos?

Penso que o IAB tem caminhado constantemente, muitas vezes com dificuldades, algumas vezes com falta de informações mas sempre tentando acertar. Ultimamente temos tentado por diversos motivos, especialmente no DF, viabilizarmos todos os nossos concursos em meio eletrônico. Vale citar a experiência do concurso “Uma escola para Guiné-Bissau”. Temos procurado levar essa experiência aos diversos estados brasileiros. Temos tentado interferir nos órgãos governamentais procurando agir politicamente nos três poderes da república. Diversos departamentos do IAB estão realizando diversos concursos de importância, ressalto como exemplo, talvez o maior, no Rio de Janeiro o “Morar Carioca”, em andamento, que trata da urbanização de 253 favelas naquela cidade. Esses dois exemplos mostram a diversidade de escalas e objetos na qual o Concurso pode ser utilizado: de uma pequena escola de 300m2, à urbanização de favelas de toda uma cidade.

9. Quais são suas metas e projetos, no IAB Nacional, sobre o tema Concursos (dentro e fora da instituição)?

Nossa meta é propor à Administração Pública a criação de uma FRENTE INTERMINISTERIAL PELA QUALIDADE DA ARQUITETURA, e por meio dessa Frente,  além da obrigatoriedade da contratação através dos concursos públicos para projetos, criar uma cultura de luta pela melhoria de nossa qualidade arquitetônica.

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