Outras aventuras do mobiliário

Outras aventuras do mobiliário.[1]

por Carlos Henrique de Lima (*)

Hoje em dia, graças ao esforço de muitos pesquisadores, sabemos que Brasília foi erguida com o trabalho de uma leva de profissionais empenhados em sua realização[2]. Apostamos na ideia de que, aos poucos, espaços preciosos e de grande qualidade arquitetônica possam transpor o roteiro dos arquitetos e ganhem espaço maior entre as pessoas. O detalhamento do projeto urbano contempla também os elementos de mobiliário, fundamentais para o funcionamento de qualquer cidade. São peças pouco percebidas – na maioria dos casos – mas que influenciam sensivelmente a vida nas cidades.

O desenho do mobiliário urbano de Brasília foi objeto de estudo da dissertação de mestrado do arquiteto Roberto Gonçalves Araujo[3]. Ali percebemos a contribuição de diversos profissionais que desenharam de lixeiras a estações de transporte coletivo.  Dentre estes objetos que se proliferam na paisagem urbana, os pontos de ônibus de Sabino Barroso são dos mais numerosos.

O desenho de Sabino Barroso conjuga simplicidade e robustez. É formado por peças concisas, elementos espaciais que servem de abrigo contra a chuva e sol para passageiros, mantendo a permeabilidade visual nos dois sentidos da pista. O revestimento é feito por placas cerâmicas que recebem todo tipo de intervenção: publicidade barata, ofertas de videntes, correções e melhoramento de monografia, excursões para Caldas Novas, dentre outros. As ofertas de massagem são menos freqüentes, sabe-se que diante dos outros, são raros os sujeitos que se proporiam destacar o telefone de quem oferecesse algumas horas desses serviços. O revestimento destes pontos também são anteparo à manifestação de correntes políticas, invariavelmente de esquerda – ou de oposição, se preferirem – que lançam ali palavras contra a ordem estabelecida. Funcionam como pequenos painéis do cenário político em todas as esferas de governo, aqui e alhures.

Recentemente as paradas receberam a intervenção singela de três artistas de Brasília que logo contagiou quem usa os pontos ou apenas passa por eles. Simone Turíbio, Gustavo Goes e Igor Lacroix revestiram estes pontos com diversos grafismos, utilizando técnicas que colagem que não danificam a superfície do bem público (veja aqui matéria publicada no Correio Braziliense, em 29/02/2012). Com isso, a cidade recebeu um presente com ditos de amor, beleza e verdade.[4] A iniciativa ganhou espaço na impressa e contagiou redes sociais. A banda Móveis Coloniais de Acaju gravou uma versão para o clipe da musica vejo em seu olhar num dia de colagem na Asa Norte.

Clique no link acima para assistir versão do clipe da música “vejo em seu olhar”, da banda Móveis Coloniais de Acaju.

É curioso ver como a manifestação em espaços públicos vai tomando novas formas com o passar dos anos e o avanço de novas tecnologias de comunicação. As paredes, pontos de ônibus e muros da cidade já estiveram tomadas por elementos de comunicação mais elaborados, aproveitando as paredes de divulgação gratuita. A arquiteta Maria Elisa Costa em colaboração aos técnicos da Secretaria de Viação e obras, projetou o Cilindro de Divulgação Cultural e Propaganda em 1986, que resultou numa contribuição muito singela para ao ponto de Sabino Barroso.[5] Um corpo cilíndrico em ser propõe a releitura de tradicionais elementos de ambientação urbana. Esses chamados pirulitos foram removidos na mesma velocidade em que foram instalados os painéis luminosos de publicidade paga. Perdemos um pouco do tempo em que a criatividade dos designers era direcionada para os cartazes que se sobrepunham aos milhares sobre o concreto.

No início do século XXI, por iniciativa de Luiz Amorim, proprietário do Açougue (cultural) T-Bone, os pontos projetados por Barroso receberam estantes metálicas onde foram depositadas algumas dezenas de livros. A proposta é que cada cidadão pudesse pegar emprestado qualquer exemplar do seu interesse em qualquer estante. Também aquele que tem em casa um livro repetido ou que não lhe diz mais por algum motivo, poderia deixá-lo nessas paradas culturais. A iniciativa contagiou moradores e opiniões, as paradas cresceram e se tornaram um sucesso.

Restava resolver alguns aspectos técnicos. As estantes abertas ou mesmo os vazios janelas nas paredes das paradas não eram suficientes e adequados para receber os exemplares, pois os livros ficaram vulneráveis, sujeitos ao sol, à chuva e à poeira. Após o encontro entre representantes do T-Bone e o escritório CoDA, surge a parceria com a Fundação Banco do Brasil que financiou a construção de oito módulos denominados estações culturais.

O projeto de Pedro Grilo, Gabriel Nogueira e Guilherme Pires é um elemento sintético que concilia as funções de guarda dos livros, painel de comunicação e, em alguns casos, monitor para acesso à internet. O arquitetos tiveram o cuidado de inserir os elementos sem fixar qualquer elemento na cobertura ou nas paredes do ponto de ônibus, cuidado necessário que se deveria ter com qualquer objeto que não está tombado mas que se encontra no perímetro tombado de Brasília.

O desenho das estações culturais guarda a mesma elegância do ponto de Sabino Barroso e não se coloca como um elemento posto ali de maneira acintosa, prejudicando a leitura de sua volumetria.  O contraste de cores é forte o suficiente para ser icônico e fazer menção ao patrocinador, mas nada que se compare às bicicletas que um banco ofereceu recentemente para os moradores da zona sul do Rio de Janeiro. A facilidade de manutenção imaginada pelos arquitetos terá como único obstáculo o grau de educação e respeito da comunidade. Espera-se que a iniciativa seja entendida como um fator de socialização e cultura, num mundo cada vez mais midiatizado.

Fica a vontade de que as estações se multipliquem e possam tomar outros lugares do Plano Piloto e demais regiões administrativas. Quem sabe, associadas a elementos que ofereçam itinerários das linhas e seus intervalos, além de outras facilidades para aqueles que enfrentam a duríssima rotina que é depender do transporte público no Distrito Federal.

A partir daí pode-se pensar em duas perspectivas de leitura para estes elementos e para o mobiliário urbano. Primeiro, estas pequenas intervenções de diversas ordens mostram como a cidade está sujeita a manifestações de gente que pensa o espaço a partir de outras posições alem daquelas que nos foram dedas por qualquer estrutura de poder. A energia destes gestos mostra como as materializações no espaço são importantes para que possamos criar vínculos com as coisas, para que possamos valorizar e utilizar os objetos de nosso cotidiano em favor de uma sociabilidade mais positiva e aberta. Segundo, a quantidade de projetos pensados, gestados, discutidos amplamente ainda é restrita. Sabemos da dificuldade do setor público em dar respostas qualificadas aos problemas urbanos, desse modo o investimento em técnicos qualificados para discutir as questões é primordial. Isso se faz pela valorização das carreiras, pela criação de equipes multidisciplinares e assim por diante.

Por fim, deve-se também considerar que estes objetos podem ser objetos de concursos públicos, abertos a equipes formadas por diversos profissionais, como arquitetos, engenheiros e designers, o que poderia ampliar consideravelmente as intervenções qualificadas em benefício da população.

Há um ano foi realizado no UniCEUB, por iniciativa do professor Fabiano Sobreira, um encontro sobre o julgamento arquitetônico em concursos de projeto. Na palestra do professor Joris Wezemael ficou surpreso com o fato de nenhum dos estádios que serão construídos para a Copa do Mundo de 2014 terem sido escolhidos por meio de concurso público de arquitetura. Na Suíça é comum que se realizem certames mesmo para pequenos equipamentos públicos, postos de saúde, escolas, módulos de serviço, enfim, qualquer objeto que faça parte do cotidiano deve ser submetido a uma escolha criteriosa, uma vez que irá afetar a vida de centenas ou milhares de pessoas. Soma-se a isso um fator de extrema relevância: o júri não é formado apenas por arquitetos. Não somos os únicos especialistas em espaço, todos os campos do conhecimento lidam com relações de espaço e tempo, cada um a sua maneira e a articulação com outras áreas só tende a ajudar na resolução – ou mesmo na formulação – de um problema. É de se pensar que isto ocorra de maneira livre, ampla e irrestrita, com correção, eficiência  e ética.

(*) Carlos Henrique de Lima é arquiteto pela FAU-UnB e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniCEUB desde 2010.


[1] O titulo é uma referencia óbvia e ocasional a conferencia de Le Corbusier proferida em 1929 na America Latina LE CORBUSIER. Precisões: sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo. São Paulo:Cosac & Naify, 2004

[2] A esse respeito ver: Leitão, Francisco e Ficher, Sylvia. A infância do Plano Piloto: Brasília, 1957 – 1964. In: PAVIANI, A. (Org.) Brasília 50 anos da capital a metrópole. Brasília: Editora UnB. PP. 97 – 135. Trabalho em que os autores, ao analisar histórico das plantas do conjunto urbanístico de Brasília, destacam a atuação de diversos profissionais empenhados nessa realização.

[3] ARAUJO, Roberto Gonçalves. Cinquenta Anos do Mobiliário Urbano de Transporte Público em Brasília. Dissertação de Mestrado. Brasília:FAU-UnB,2010.

[4] Estas são as palavras empregadas pelos artistas e arquitetos quando discorrem sobre o caráter da intervenção.

[5] Os cilindros também foram instalados em outros locais de grande movimento na cidade e foram praticamente abolidos do espaço público de Brasília. Os painéis iluminados venceram a disputa, caso esta tenha ocorrido em algum momento.

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