Concurso Nacional de Paisagismo para Estudantes – Menção Honrosa – Trabalho n° 3

Menção Honrosa – Trabalho n° 3

Autores: Mauricio Müller e Guilherme Iablonovski

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – RS

Local do projeto – Porto Alegre

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ENEPEA - Menção Honrosa 03 - Imagem 05ENEPEA - Menção Honrosa 03 - Imagem 06 - Croqui

(Clique na galeria para visualização ampliada das imagens.)

Memorial Descritivo – Repensar o Campus

Estratégias de reconquista do Espaço Público

O  Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul está localizado na área central da cidade de Porto Alegre (RS). O quarteirão sofre com um mal comum em grande parte das metrópoles brasileiras: o mau planejamento dos espaços públicos. Esse mau planejamento gera uma série de outros problemas para o resto da cidade – e não somente para os usuários diretos do campus (funcionários, estudantes, professores) – sendo o principal deles insegurança: resultante da falta de vitalidade desses locais. O objetivo  do projeto não é apenas requalificar esses espaços, mas garantir a eles  novos usos, se adaptando às necessidades dos frequentadores do campus.

1. Do Cercamento

A grade, que na teoria “traz” segurança ao campus separando-o da rua, traz mais insegurança ainda para as ruas do entorno do campus.  A falta de espaços animados por usuários voltados para rua geram calçadas vazias e, consequentemente, insegurança aos que circulam pelas mesmas. Notícias recentes mostram que o entorno do campus tem se tornado cenário de diversos assaltos ou até mesmo estupros.

Outro ponto interessante de se discutir é o fato da grade separar fisicamente um espaço público (calçada/rua) de outro espaço público (um campus de uma universidade federal). O campus não poderia se tornar uma praça aberta para a rua, funcionando até como um atalho para as pessoas que circulam na região?

2. Dos Acessos

A falta de atividades na calçada do entorno não é causada apenas pela existência das grades, mas também pelo fechamento contínuo dos edifícios que abrigam as faculdades. Atualmente, no quarteirão em estudo, apenas o edifício da Faculdade de Arquitetura abre-se diretamente para a rua (no projeto de reforma do mesmo, a entrada principal prevista também volta-se para o interior do campus). A Faculdade de Medicina é o caso mais contraditório: o edifício tem na esquina seu ponto mais marcante, mas fechando

3. Do Estacionamento

Atualmente, um grande estacionamento a céu aberto é o que se encontra na maior parte da superfície do quarteirão. O que antes era uma grande várzea, com 2 campos de futebol, hoje é um mar de carros. A circulação constante de pedestres ao longo do estacionamento torna-se perigosa e desagradável para o pedestre e um incômodo para os usuários de automóveis. Além disso, os carros dificultam a compreensão do espaço aberto do quarteirão.

Estratégias

Ao pensar em um projeto paisagístico para o quarteirão, é inevitável a reflexão a respeito da situação do mesmo em relação ao seu entorno imediato. Integração é a palavra-chave para descrever as intenções do projeto. Ligar o singular tecido da universidade ao tecido urbano circundante aumenta as chances de um número elevado de extratos da sociedade (co)habitar esse espaço. Segundo Jacobs (1961), uma grande variedade de usuários que compartilham regras e valores dentro de um mesmo espaço público tende a melhorar a qualidade de vida de toda a cidade. Ainda segundo seus estudos, Jacobs aponta que a segurança urbana está estreitamente conectada à segurança social: quanto mais pessoas estiverem atentas ao seu entorno, menos as pessoas tenderam a desobedecer as regras pré-estabelecidas pela sociedade (ao exemplo dos assaltos). Dessas linhas de pensamento surgiram as linhas que conduzem o projeto:

1. Fim do Cercamento

O campus abre-se para a cidade e permite a entrada de não-usuários. Com o projeto paisagístico prevendo o fluxo de pedestres, o campus será mais do que um espaço de permanência de acadêmicos: será também um local de passagem e de ligação para pessoas que desejam ir de um lado ao outro do quarteirão.

2. Acessos voltados para a rua

Com os acessos dos edifícios voltando-se novamente para as rua, cria-se um maior movimento de pessoas pelas calçadas, e – consequentemente – aumentando-se a segurança nas mesmas.

3. Estacionamento Subterrâneo

A recuperação do espaço pelas pessoas passa inevitavelmente pela remodelagem do estacionamento da universidade. Ao enterrá-lo, é liberada a totalidade da superfície do quarteirão para utilização dos pedestres e para criação de espaços de vocações diversas: de passagem, de permanência e de contemplação. Ressaltando a relação do campus com o Parque Farroupilha, o estacionamento teria dupla função: durante a semana, serviria aos usuários do campus, e aos fins de semana, aos usuários do Parque Farroupilha.

4. Centralidades

Hoje, existem no campus três pontos de centralidade e de concentração de usuários. Todos eles estão localizados na porção norte, junto ao único eixo de circulação exclusivo de pedestres. Com a liberação do resto do terreno para circulação exclusiva das pessoas se faz a necessária a criação de mais um ponto atrativo de usuários localizada na porção sul do quarteirão.

5. Largo

Com a eliminação do estacionamento no térreo do quarteirão, surgem grandes espaços nas partes norte e oeste do terreno (ligados à Avenida Osvaldo Aranha e à Rua Sarmento Leite). Esses espaços, que podem ser vistos como praças cívicas ou gramados abertos, suportam os trajetos mais exigidos no terreno (travessia leste-oeste) de maneira linear. Esses espaços se prestariam também a receber atividades como feiras, shows e palestras.

6. Meio Ambiente

Procurando respeitar a vocação original do terreno (uma várzea), o tratamento paisagístico procura criar rasgos na superfície altamente impermeável criada no passado para acolher o estacionamento a céu aberto. Um largo pontuado por uma malha de guapuruvus recebe nova pavimentação semi-permeável, um grande campo gramado, ao estilo bucólico das universidades mais tradicionais é elevado, permitindo que as gramíneas desenvolvam livres da abrasão da circulação peatonal. A escolha de espécies procura respeitar o ecossistema  local: todas as espécies empregadas são nativas do Rio Grande do Sul. Apesar de bem servido de árvores, que foram preservadas apesar da ocupação automobilística através dos anos, a variedade de espécies não é muito extensa.Segundo a teoria do Jardim em Movimento, de Gilles Clément,uma variedade maior de espécies tende a criar ecossistemas mais sustentáveis e desenvolvíveis e mutáveis. Por esses fatores, a intervenção paisagística se concentra principalmente na modificação dos revestimentos do solo. e na inserção de novas espécies vegetais. Nesse sentido, o interesse em urbanizar o campus tem igual importância a de tornar esse campus ecologicamente sustentável, promovendo a manutenção da saúda das espécies vegetais existentes e a inserção consciente de novos exemplares.

Texto das Imagens

Imagens 1 e 2: Aquilo que antes era uma forma regular preenchida por automóveis, ao ter uma de suas arestas aberta para a Av. Osvaldo Aranaha, se torna um híbrido de praça cívica (ou praça seca) e área de sombra . Para manter as proporções de espaço amplo, mas ao mesmo tempo, não obter um espaço árido e desagradável, é criada uma malha de 10 por 10 metros, pontilhada por guapuruvus. Essa espécie, que pode chegar a 30 metros de altura a 10 metros de diâmetro de copa, se mostrou uma excelente escolha para a proposta : seus troncos balizam o espaço, criando uma escala mais vivenciável e divisível, sem tirar a possibilidade de abrigar atividades que necessitem de grandes áreas livres (como uma palestra ao ar livre), e protegidas do sol. Para o acabamento perfeito do tronco junto ao piso, é criada uma estrutura em sanduíche: as raízes aparentes são recobridas com material fertilizante (20cm), que é posteriormente recoberto com piso semi-permeável (pisograma).

Imagem 3: O estreito espaço existente entre o prédio da Reitoria e seu primeiro anexo, que hoje tem como primeiro uso abrigar carros, é transformado num agradável espaço de estar. A intervenção nesse espaço intersticial é suportada por dois princípios básicos desenvolvidos pelo sociólogo William Whyte: a noção de que as pessoas se sentam aonde existirem superfícies sobre as quais possam se sentar (ou seja, é importante prover uma quantidade suficiente de bancos); e a noção de elemento triangulador, que exerce a função de surpreender ou entreter os usuários de maneira a fazer com que esses se conectem por se verem, juntos, dentro de uma situação atípica. Através dessas estratégias simples, pretendemos aumentar a usabilidade desse espaço negligenciado.

Imagem 4: O interstício logo em frente ao cinema do campus é tratado como um grande foyer ao ar livre. No entanto, ao invés de tratar o espaço com uma boa quantidade de bancos, um grande elemento plástico, uma rocha, é colocado no centro do espaço, promovendo, novamente, o efeito de triangulação. Através do tratamento paisagístico desse espaço, promove-se a visibilidade das salas de cinema – hoje sub-utilizadas dentro do campus -, que teriam usuários temporários regularmente.

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Agradecemos aos autores pela disponibilização das informações para publicação.

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