Torre APL – Lisboa

Como parte da seção obras construídas publicamos o projeto da Torre APL (Centro de Coordenação e Controle de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa), em Lisboa, do arquiteto Gonçalo Byrne. O projeto resultou de concurso realizado em 1997 e a obra foi concluída em 2001.

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Memorial Descritivo (texto enviado pelos autores, editado por concursosdeprojeto.org)

O Centro de Coordenação e Controle de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa, pela função que desempenha e pela posição geográfica que ocupa, assume uma presença de exceção na relação da cidade de Lisboa com o rio.

Destinado a realizar o controle de uma vasta área marítima e fluvial, a nova estrutura arquitetônica deve procurar o seu significado simbólico, à semelhança de outras construções, que ao longo da história se foram construindo na frente ribeirinha entre as fortalezas da barra do Tejo e a nova ponte Vasco da Gama.

A nova referência antecipa-se à torre de Belém manuelina, contemporânea do período áureo das descobertas; ao monumento que o Estado Novo “saudosisticamente” dedica a esse mesmo período; à grandiosa e cívica porta da cidade que Pombal e D. José “iluminadamente” criam na Praça do Comércio; ou ainda ao referencial contemporâneo da Expo 98 através da vibrátil presença do Oceanário e da nova “porta-praça”, que genialmente interioriza o rio no Pavilhão de Portugal de Álvaro Siza.

São obviamente edifícios que traduzem na sua forma arquitectónica os valores representativos do período histórico em que foram feitos, associados à função e ao desempenho que deles se esperava. Nas sucessivas contemporaneidades em que se fundavam, todos eles traduziam na sua estrutura e linguagem arquitetônica três aspectos fundamentais:

– A presença da terra, da cidade ou da sua margem, sobre ela “pousando”.

– A presença da água, do rio, da via marítima, ou seja, do momento da amarração, da interface, da chegada e da partida.

– O tipo de relação conceitual entre terra e mar, que em cada período temporal os seus agentes projetuais acharam pertinente transmitir através do modo como idealizavam e construíam os respectivos “edifícios”.

São óbvias as vontades de no Terreiro do Paço ritualizar a entrada na cidade pelo rio, por meio de uma porta monumental e representativa; na Torrre de Belém fazer entrar pelo rio a fortaleza em forma de nave “pronta a partir” em defesa da descoberta; ou na ponte, de enquadrar em nova porta a silhueta longínqua da cidade dentro do arco que, cavalgando o rio, liga as margens. Todas estas construções souberam, para além do seu utilitarismo imediato, transmitir aos seus contemporâneos e vindouros outras mensagens e conceitos próprios do seu tempo, indelevelmente gravados na sua materialidade.

A sugestão imediata da forma do novo centro é a da torre. À banalização da noção de controle associou-se a imagem da torre: para controlar é necessário dominar, visual e simbolicamente. Da conotação do “poder” às suas derivações militares e estratégicas, a vertical dominante da torre sugere sempre controle. O menir, o obelisco barroco, a torre de aeroporto, são objetos que do ponto de vista simbólico, ao acentuarem a direção vertical, ritualizam a relação entre a terra e o ar (o céu e quem o “habita” ou “usa”).

Esta primeira valência liga-se ao conceito da terra e da sua ligação ao céu. Este conceito é explicitamente pedido no programa do Centro, e obviamente subjacente ao uso próprio deste equipamento, apesar de hoje a coordenação e controle se apoiarem cada vez mais nos meios eletrônicos e nas imagens virtuais que esses mesmos meios permitem. Visualmente, no entanto, o campo privilegiado incide no plano de água, local das ações a controlar.

– O plano de água (rio e mar) introduz uma segunda valência que consideramos também essencial para o presente projeto. A presença da água está neste caso intimamente ligada à dimensão horizontal. A linha do horizonte, a frente marginal, o molhe do porto na sua aproximação panorâmica, constituem referências materiais do próprio conceito de horizontalidade. A margem de contato entre água e terra parte do referencial horizontal sobre o qual se deverá erguer a construção da torre. O plano de água é na essência fluido e contém, para além do seu próprio movimento, o movimento do tráfego que “desliza” na sua superfície. Adquire portanto uma valência dinâmica que se confronta com a estaticidade da terra e da torre.

Estes dois conceitos, de horizontalidade e movimento, assumem no projecto o desejo de transmitir a imagem do edifício a deslizar no seu suporte (o molhe). Esta sugestão de quase suspensão é dinamizada pela ascenção oblíqua do volume, imprimindo a tensão de um (aparente) desequilíbrio. Por sua vez, a sombra provocada pela pala do estacionamento coberto, do qual a construção se iniciará em breve, retira peso ao edifício, introduzindo-lhe uma dimensão dinâmica no modo de “pousar na terra e deslizar para o céu”.

O Centro de Coordenação e Controle de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa funcionará 24 sobre 24 horas, pelo que pensamos que a sua presença deve ser visível de dia e de noite, obviamente com leituras diferentes.

O objetivo pretendido é de certo modo o de provocar a inversão de efeitos resultantes da exposição à luz solar e da luz artificial nocturna, como se tratando do negativo e positivo fotográfico. Assim, o sombreamento solar provocará o escurecimento da alheta horizontal inferior do estacionamento coberto e o plano envidraçado superior pela sombra projetada das palas de proteção solar. Inversamente, de noite a iluminação da galeria do estacionamento fará realçar a luminosidade da grande alheta horizontal, enquanto a iluminação dos espaços nos pisos superiores envidraçados sublinha o carácter anelar das palas de proteção solar. Retoma-se assim, com carácter efêmero, o valor imagético noturno do Centro de Controle, valor este inerente à visibilidade externa deste novo “totem” urbano.

– Um terceiro aspecto que gostaríamos sublinhar tem a ver com o “valor” que procuramos introduzir na relação entre terra e água, entre o edifício e a sua função, cunho do novo tempo e dos seus valores mais recentes.

Que significado pode ter hoje este edifício para além do imediatismo do uso a que se destina? À semelhança dos edifícios históricos mencionados (Torre de Belém, Monumento dos Descobrimentos, Terreiro do Paço, etc.) que representam o tempo e os respectivos valores em que foram projectados, que valores do nosso tempo gostaríamos de ver assinalados neste edifício?

Desde logo o sentido real e visível de uma época de transição e intensas transformações, que retira peso e certeza dogmática a muitos dos conceitos dados como adquiridos e inquestionáveis. Aquilo, a que alguns têm apelidado de “insustentável leveza” do tempo presente, traduz-se arquitetonicamente num edifício que já não se faz apenas pela referência do farol, à torre de observação, ou a qualquer outro arquétipo reconhecível, mas, e cada vez mais, recorre à função mediadora da eletrônica, da informática, ou seja da realidade “virtual” da imagem digitalizada, etérea e imaterial.

Na realidade, o edifício é um pouco de tudo: centro de pilotos, torre de observação, farol, mas de acordo com o programa fornecido, é a sofisticação da tecnologia “invisível” dos “VHF”, dos “GPS” e da sua progressiva elaboração, que cada vez mais se torna o meio privilegiado do controle humano.

A realidade, supomos, não contempla a imagem clássica daqueles referenciais, mas serve como mediadora de um objeto que progressivamente se desmaterializa, começando num volume que desliza e se eleva desde a solidez da pedra, seguida do revestimento de cobre , para se concluir na leveza e transparência do vidro, e finalmente na “imaterialidade” das ondas hertezianas simbolizadas por antenas.

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Ficha Técnica

Arquiteto
Gonçalo Byrne

Colaboradores (Projeto)
José Maria Assis
Vítor Pais
Margarida Silveira Machado
Pedro Castro Neves
João Fernandes
Patrícia Barbas
Filipe Mónica

Assistência Técnica
Rolf Heinemann
Marta Caldeira

Revisão de Projeto
Rolf Heinemann
Marta Caldeira

Fundações e Estruturas
A2P Consult, Lda.
Engº João Appleton
Engº Nuno Travassos
Engº Francisco Virtuoso

Instalações Elétricas e Telecomunicações
JOULE, Projectos, Estudos e Coordenação, Lda.
Engº Luis Gonçalves

Sistemas de Climatização
JOSÉ GALVÃO TELES, Engenheiros, Lda.
Engº. José Galvão Teles

Instalações de Águas e Esgotos
GRADE RIBEIRO, Estudos, Projectos e Consultoria, Lda.
Engº. Manuel José Grade Ribeiro

Construtor
ENSUL, Empreendimentos Norte Sul, S. A.

Fiscalização
CONSULMAR, Projectistas e Consultores, Lda.

Área
2280 m2

Ano de projeto / concurso
1997

Ano de conclusão
2001

Fotografia
Carl Lang
Daniel Malhão
Rolf Heinemann
Eduardo Marvão

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Agradecemos ao arquiteto Gonçalo Byrne pela dispobilização do material publicado.

Uma resposta em “Torre APL – Lisboa

  1. Gostei muito, projeto diferenciado como este depende da visão progressiva dos jurados sem a qual não sairia do papel. Parabéns ao autor do projeto e da comissão julgadora.

Comentários

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