Museu – Instituto Moreira Salles – São Paulo – Arquitetos Associados

Veja a seguir o projeto do escritório Arquitetos Associados, um dos finalistas do concurso para o museu do Instituto Moreira Salles na Av. Paulista, em São Paulo.

O projeto para a sede paulistana do Instituto Moreira Salles propõe um edifício austero, simples, de construção econômica e que evita monumentalizar-se através da elaboração formal ou auto-expressão. O edifício proposto opta deliberadamente por estabelecer sutis relações com o espaço urbano, sempre através de aberturas controladas que se intercalam aos percursos expositivos com caráter introspectivo, estabelecendo alternâncias entre espaços de concentração e fruição das obras de arte, e intervalos que revelam visadas inesperadas da metrópole nos espaços de circulação e conexão entre exposições.  Apresenta ainda variadas articulações espaciais internas a reforçar sua função de suporte e contenedor das atividades e da vida cultural que ali se desenvolverá. Busca qualificar os espaços internos para os diferentes usos, reforçando seu caráter público e promovendo uma grande abertura à sua ocupação futura. Para tanto, a indeterminação de usos, o design universal e a possibilidade de transformação de seus espaços conforme as variadas demandas institucionais e curatoriais que se apresentarão ao longo da vida do edifício constituem-se em fundamentos para o projeto.

AS POTENCIALIDADES DO LUGAR E O PARTIDO ADOTADO

A proposta busca inicialmente compreender as potencialidades geradas pela adoção obrigatória de um partido arquitetônico verticalizado, dadas as dimensões do lote e as restrições impostas pela legislação urbana. Isso se dá através de uma cuidadosa distribuição das atividades solicitadas pelo Instituto em uma seqüência que começa pelos espaços mais públicos, localizados nos primeiros pavimentos, e que vai gradativamente se tornando menos aberta até as atividades mais resguardadas, localizadas nos níveis superiores. A gradação crescente de níveis de privacidade, as articulações verticais propostas e as possibilidades de interações visuais entre os pavimentos constituem estratégias que evitam barreiras físicas ou rupturas bruscas na fruição dos espaços interiores a fim de evitar a segregação das diversas atividades além do necessário.

A acomodação dos setores principais do Instituto começa pelo nível térreo, de caráter mais público, que abriga o acolhimento, o café e a loja. No pavimento logo acima estão localizadas as salas de aula e a biblioteca integradas visualmente ao pavimento inferior pelo vazio central. Os dois pavimentos acima deste último abrigam o auditório que pode ser acessado por qualquer um dos seus dois níveis, os quais também possuem vazios que permitem a interação visual com os níveis abaixo. Acima do auditório estão quatro pavimentos destinados às exposições, com sua articulação interna própria, sendo que o primeiro deles também se articula visual e fisicamente com os pavimentos inferiores. No alto da torre estão dois pavimentos destinados ao setor administrativo, mais privados, e, por isso mesmo, abertos para um grande vazio interno.

O CARÁTER PÚBLICO DO EDIFÍCIO

 Constitui-se em um dado determinante da solução apresentada a consideração da estrutura urbana, para além da inserção do edifício no seu entorno edificado, mas principalmente como referência para a constituição de seu caráter público, enfatizado pela total abertura do pavimento térreo, que abriga atividades públicas como acesso principal, loja e café.

O caráter público do edifício é reforçado pela inflexão vertical definida pela sequência de vazios nas lajes imediatamente acima do térreo, propiciando continuidade visual entre este andar e as diversas atividades também abertas ao público que se desenvolvem verticalmente na edificação.

A abertura direta dos elevadores para a praça, sem a definição de um espaço de transição fechado, se oferece ao público sem mediações, o que amplifica simbolicamente o caráter público dos pavimentos superiores ao tratar o elemento de conexão vertical como continuidade da rua. Essa abordagem radical retoma a solução de um dos edifícios pioneiros da arquitetura moderna brasileira, a sede da ABI no Rio de Janeiro. Para garantir a necessária segurança, prevê-se a utilização de elevadores com acesso controlado por chip, o que permite monitorar todos os deslocamentos no interior do edifício, diferenciando níveis de acesso conforme o status do usuário – visitante, staff, convidado. Para o fechamento noturno prevê-se a instalação de porta de enrolar automática, encerrando hall, elevadores e parte da praça.

Para ampliar a abertura ao pedestre e conciliá-la com os necessários acessos e a acomodação de veículos, tanto de passeio como para carga e descarga, as rampas de automóveis se localizam nos afastamentos laterais, com entrada e saída independentes, a assegurar a recirculação e funcionar como porte-cochère ao nível do subsolo. Todo o piso da área térrea dá continuidade à calçada da Avenida, adotando o mesmo material e cor – granilite preto semi-polido de baixa granulometria – nas rampas de automóveis e pedestres, praça, café – de modo a reforçar a continuidade física e visual entre os diversos espaços térreos.

O caráter aberto do espaço térreo de uso público é também reforçado pela ausência de pilares na largura total, viabilizada pela transição estrutural que concentra os apoios nas empenas dos muros de divisa. Além disso, tal solução estrutural gera um efeito visual de forte expressividade no nível de chegada, ao criar a impressão de que o grande bloco prismático não tem apoios.

SOLUÇÃO VOLUMÉTRICA ESTEREOTÔMICA

O reconhecimento das especificidades do lote urbano típico, inserido na malha urbana consolidada, em uma paisagem urbana caracterizada pelos grandes edifícios vizinhos, orienta a busca por uma solução tipológica que reedita o prisma vertical esbelto, sem adereços, com grande sobriedade, completando a sequência de elementos verticais que constitui predominantemente a paisagem da Paulista.

Por outro lado, buscou-se introduzir sutis diferenciações em relação aos edifícios vizinhos, em especial por uma cuidadosa solução de aberturas que oculta a modulação variada dos pavimentos, evitando a repetição da regularidade das aberturas predominante no entorno. Neste sentido, destaca-se a estereotomia do prisma em concreto, com arestas marcadas, sutis texturas, grandes e poucas aberturas frontais, a estabelecer variadas relações com a Avenida Paulista: na base, a abertura reentrante permite integrar visualmente salas de aula e espaço urbano; no topo, a ampla abertura descortina a vista da cidade para os escritórios, e conforma um jardim que participa da qualificação ambiental do interior e introduz na figura estereotômica do edifício um fragmento de natureza que se contrapõe à frieza da pedra e do vidro predominantes na Paulista; no centro da massa opaca frontal do prisma, vazios gerados pelo espaço entre os lances das escadas que ligam os pavimentos de exposição propiciam a abertura de visadas para a paisagem urbana, através do topo envidraçado das escadas.

Clique na imagem abaixo para animação:

As aberturas nos tetos das escadas frontais se voltam para os dois lados, evitando a visualização dos dois prédios vizinhos, ao mesmo tempo em que permitem visadas para diferentes situações urbanas do entorno, criando intervalos de abertura controlada à paisagem na transição entre as sequencias introspectivas das exposições.

Clique na imagem abaixo para animação:

A simplicidade e o caráter tátil e tectônico do prisma elevado, discreta reverência ao vizinho MASP, de Lina Bo Bardi, evita a desconexão total com o entorno típica das caixas cegas, conciliando a abertura com o necessário controle ambiental das exposições.

Reforça a diferenciação entre o edifício e seus vizinhos a orientação das aberturas voltadas predominantemente para a frente, para os fundos e para o jardim interno – no caso das áreas administrativas -, criando ambientações específicas, qualificadas e com maior privacidade e menor interferência dos edifícios vizinhos, de modo a evitar visadas diretas para as fachadas laterais daqueles edifícios. Nas faces laterais, de função estrutural, foram cuidadosamente estudados recortes que, ora com fechamento translúcido, reforçam a iluminação natural de espaços específicos, ora transparentes, aproveitam a abertura gerada pelo intervalo existente entre os prédios, ao fundo do terreno, para explorar as visuais para o Colégio São Luiz, a Rua Haddock Lobo e sua generosa arborização.

USOS: FLEXIBILIDADE, POLIVALÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO

A fim de evitar a funcionalização excessiva, pautou a definição da organização interna a busca da máxima flexibilidade e indeterminação de usos, associada à qualificação precisa de cada conjunto de espaços conforme suas diferentes especificidades – espaços expositivos, espaços administrativos, espaços de eventos e acolhimento de público, espaços técnicos e de apoio. Da flexibilidade e indeterminação decorrem:

– A abertura a possibilidades de transformação dos usos ao longo do tempo com o mínimo impacto para a edificação e suas infraestruturas;

– A polivalência e sobreposição de usos, otimizando espaços e equipamentos, o que se verifica: na praça de manobra no subsolo, compartilhada para porte-cochère, acesso ao estacionamento, parada de táxi e manobra para carga e descarga; no uso do elevador de grande dimensão em horários distintos tanto para o transporte de cargas como de pessoas, ampliando seu aproveitamento e reduzindo o investimento e a utilização de área para infraestrutura e apoio; na praça de chegada, aberta, em que coexistem recepção, loja e café; nas áreas de exposição, em que se evita a pré-determinação de áreas para multimídia, exposição temporária ou exposição permanente; nas áreas administrativas, em que o arranjo tipo escritório paisagem permite compartilhar áreas de apoio e ambientação, como reuniões, copa, jardim; nas escadas de emergência também usadas nos deslocamentos internos de pequeno percurso com as portas mantidas abertas e com a face voltada para os fundos totalmente transparente, com vidro especial com resistência a fogo.

ESPAÇOS EXPOSITIVOS FLEXÍVEIS E UNIVERSAIS

Propõe-se a ampliação do setor de exposições à maior área possível, integrando a ele a área destinada às exposições multimídia, o que permitirá aos curadores maior riqueza de possibilidades espaciais para as montagens. A área total destinada às exposições desenvolve-se ao longo de quatro pavimentos com sutis diferenças qualitativas e quantitativas entre eles. O primeiro pavimento expositivo, com 19,5m x 12,3m e 4,0m de pé direito, integra-se visualmente e funcionalmente ao foyer do auditório no pavimento inferior, graças ao vazio entre eles. O segundo pavimento expositivo é o maior deles, com 28,7m x 12,3m e 4,5m de pé direito e tem as duas maiores laterais do teto rasgadas, por onde a luz natural proveniente do pavimento superior penetra. O terceiro pavimento expositivo, com 28,7m x 9,1m e 4,0 de pé direito, possui dois vazios contínuos no piso, juntos às paredes laterais do edifício, o que gera a possibilidade de integração visual com o pavimento inferior caso seja desejável em determinadas montagens. Quando desejável total separação, o guarda-corpo do terceiro nível, rebatível, fecha o vazio e se converte em piso, ampliando a largura do pavimento para os 12,3m totais. Ao nível do forro deste pavimento e ao longo de toda a sua extensão longitudinal entra luz natural filtrada e controlada, que varre as paredes no pé direito duplo correspondentes a estes dois vazios laterais. Estruturalmente, este pavimento fica completamente solto das empenas laterais de concreto, atirantado pelo pavimento logo acima, evitando assim soluções estruturais que gerassem a interrupção visual dos vazios laterais ou pilares no pavimento inferior. O quarto pavimento expositivo tem 28,7m x 9,3m e 4,0 de pé direito. Ressalta-se que qualquer uma das aberturas de iluminação indireta e mesmo a ligação visual entre o segundo e o terceiro pavimento de exposições podem facilmente ser obstruídas total ou parcialmente a qualquer tempo com fechamentos leves removíveis, em função das necessidades expositivas.

A criação de dois núcleos de circulação vertical independentes nas duas extremidades dos pavimentos expositivos permite as mais diversas combinações e percursos para a produção de exposições, desde montagens independentes até uma grande mostra ao longo das quatro salas, que apresentam ainda a possibilidade de articulação física direta com o foyer do auditório.

Esta dupla conexão potencializa a sua ocupação variada conforme as diferentes demandas curatoriais e permite as mais diversas montagens expositivas com percursos totalmente acessíveis, coerentes com qualquer sequência expositiva.

O segundo conjunto de escadas que serve exclusivamente o conjunto de exposições apresenta três escadas que conformam três situações diferenciadas de percursos entre salas: a primeira, inferior, conecta 5o e 6o pavimentos através de um percurso ascendente cujo teto de vidro permite visadas em escorço para o final da Paulista, mirando o conjunto arbóreo do Hospital das Clínicas a oeste; a segunda, intermediária, faz um percurso em dois lances, mais fechado; a terceira, superior, conecta 7o e 8o pavimentos com uma escada linear em sentido contrário à inferior, com abertura visual similar, no teto, voltada para o início da Paulista, permitindo avistar o Conjunto Nacional e suas imediações. Nas escadas, as aberturas estrategicamente localizadas no teto, e não nas faces voltadas para a rua, reforçam sua intimidade, ampliam a leitura do prisma externo em concreto e potencializam visadas estratégicas, evitando a abertura direta para a avenida e os edifícios do entorno imediato. Ao intercalar escadas com diferentes percursos, o conjunto oferece diferentes pontos de acesso aos pavimentos, ampliando as possibilidades de montagens nos diversos salões. Evita-se, assim, uma pré-determinação de uso dos espaços expositivos, ampliando a sua abertura às mais diversas concepções curatoriais, e assegura-se o caráter universal e inclusivo do edifício conforme os princípios do Desenho Universal.

O Desenho Universal orienta ainda que todos as circulações e sanitários do edifício sejam acessíveis e de uso universal, sem exceção. A adoção irrestrita da acessibilidade universal visa a oferecer a todos os usuários, indiscriminadamente, as mesmas possibilidades de usufruto dos espaços do edifício.

TEATRO: RIGOR NO FUNCIONAMENTO E NO TRATAMENTO ACÚSTICO

No teatro, a tripla função que inclui ainda auditório e cinema exigiu cuidado na definição e no dimensionamento dos espaços de apoio – camarins acessíveis, depósito, sala de projeções com projetores 35mm e digital, cabine de tradução simultânea. Camarim, palco e assentos acessíveis da plateia utilizam o acesso inferior, que se faz pelo foyer principal. Cabines de projeção e tradução são acessíveis pelo mezanino do foyer, de onde também se faz o acesso por trás e pela parte alta da plateia, indispensável para entrada e saída eventuais durante os espetáculos.  Sua capacidade de 160 lugares é maior do que a solicitada no programa de necessidades, e oferece um palco com profundidade compatível com a apresentação de shows de médio porte, com infraestrutura de mecânica e iluminação cênica compatíveis com a sua escala. Por sua polivalência, prevê ainda a instalação um sistema de controle variável de tratamento acústico, de modo a qualificar o ambiente tanto para apresentações acústicas como para o som eletromecânico. A fim de garantir balanço tonal de graves e razão de agudos de forma a gerar calidez e brilho, definição e claridade apropriados ao ambiente, as superfícies apresentarão absorção e difusão sonora adequadas, inclinações e possibilidade de ajustes resultantes de estudos detalhados da acústica geométrica do ambiente. Em caráter preliminar, ressaltam-se as seguintes medidas:

– as laterais da plateia possuem ranhuras refletoras para evitar o efeito flutter. Estas ranhuras, instaladas com pequena inclinação, consistem de painéis de madeira refletores de média e alta freqüência e absorventes de baixa freqüência, reguláveis e instalados sobre camada de material fono-absorvente;

– os painéis de teto apresentam perfil cuja geometria contribui para refletir o som para as partes mais profundas da plateia;

– a porção posterior da plateia apresenta material fono-absorvente, assim como seu piso, que recebe manta vinílica acústica, de grande eficiência e fácil manutenção, evitando os carpetes de tecido.

 

CONSTRUÇÃO E FORMA: RACIONALIDADE TECTÔNICA E SIMPLICIDADE

A definição de uma estrutura racionalizada, de execução relativamente simples, com a melhor tecnologia disponível – o concreto protendido com cordoalhas engraxadas – reduz seções de elementos estruturais e simplifica o sistema estrutural, destacando-se particularmente a eliminação de vigas nas lajes dos pavimentos, o que permite conciliar o atendimento aos afastamentos laterais sem prejuízo do número de pavimentos ou da altura interna de cada um dos espaços, em especial das exposições.

À superestrutura em concreto armado protendido aparente, a ser executado com fôrma metálica, se sobrepõem elementos leves em estrutura metálica e vedações em aço SAC-300 patinável, com acabamento oxidado. Esses elementos constituem todas as vedações em reentrâncias, ora opacas, ora perfuradas para filtrar a luz, conforme a necessidade dos ambientes internos. A distinção entre dois sistemas construtivos, um estereotômico, da caixa que conforma as faces do prisma externo e as suas divisões internas, e outro tectônico, de elementos leves que constituem as vedações recuadas e reentrantes, permite simplificar a etapa construtiva de fôrmas e concreto e adotar geometrias mais variadas nos elementos leves, constituindo-se em uma importante estratégia plástica, intrinsecamente vinculada à lógica da construção. Essa estratégia diferencia significativamente o volume resultante dos edifícios do entorno imediato. Sua singularidade é reforçada pela base monocromática sobre a qual se assenta, ligeiramente mais escura, o que reforça a sombra do espaço público ali gerado.

Os apoios concentram-se nas faces laterais, liberando todo o pavimento, com 12,35m de vão interno livre, o que favorece a variedade de arranjos espaciais em todos os ambientes. O núcleo de circulação vertical conforma elemento rígido que contribui para estabilizar o conjunto, e organiza todos os elementos que exigem prumadas para distribuição vertical em shafts: abastecimento de água e esgoto, linhas mestras do sistema de água gelada do ar condicionado, prumadas do sistema de prevenção e combate a incêndio, alimentadores de elétrica, lógica e segurança.

Nos pavimentos superiores, prevê-se a utilização de lajes nervuradas e protendidas, com altura de 50cm, de modo a assegurar inércia compatível com o vão, minimizando deformações. Nos pavimentos inferiores, do subsolo, a redução dos vãos decorrente da inclusão de pilares intermediários, sem prejuízo da distribuição das vagas, permite adotar laje maciça, também protendida, reduzindo significativamente a altura de entrepisos e consequentemente reduzindo o volume de escavações e a altura de contenções.

A adoção de elevadores de automóveis para acesso às áreas de estacionamento, conectando o 1o subsolo aos demais, associada à máxima racionalização das áreas de estacionamento, permite reduzir as escavações em pelo menos um pavimento, evitando a aproximação com o nível do lençol freático e reduzindo custos de contenções. Para a execução dessa área, prevê-se a utilização de paredes diafragma, com espessura aproximada de 50cm, necessária para viabilizar o delicado procedimento executivo, visto que há construções vizinhas junto às divisas cuja estabilidade deve ser observada. A escavação mecânica de paredes diafragma moldadas in loco com guindaste tipo Clam Shell de controle hidráulico, que apresenta maior precisão, tem como principais virtudes eliminar vibrações, não causar sensíveis descompressões ou modificações no terreno, evitando danos às estruturas existentes, e funcionar como elemento estrutural e como septo impermeabilizante impedindo o fluxo de água decorrente de eventual variação no lençol freático. Entre a remoção da terra e a execução da estrutura dos estacionamentos, que estabilizará definitivamente as contenções, será necessário executar elementos de estabilização temporária das contenções, através de tirantes nos terrenos vizinhos ou de vigamentos metálicos transversais.Alternativamente, é possível executar as contenções com perfis metálicos cravados, completados com faixas de concreto armado atirantadas no terreno vizinho – o que é condicionado ao diagnóstico da viabilidade de execução tendo em vista as fundações existentes no entorno imediato.

Todo o processo deve ser submetido a monitoramento de alta precisão, com estação total e dispositivos de aferição semanal do nivelamento das construções adjacentes e do prumo dos elementos de contenção, a fim de diagnosticar o menor indício de recalque de terreno antes de qualquer comprometimento das edificações.

Apresentam-se pelo menos duas lógicas distintas para a implantação da obra, para futura definição tendo em vista os diferentes cenários de cronograma e investimento. Em ambas, considera-se desejável proceder à escavação inicial até atingir a cota dos subsolos dos vizinhos – etapa que dispensa a execução de contenções. Após esta etapa, duas alternativas se apresentam: a primeira, com a execução das paredes diafragma e escavação completa do subsolo seguida de edificação das estruturas e lajes do subsolo e, em sequência, da estrutura da torre; a segunda, com a escavação e edificação simultâneas, executando as contenções e estruturas do subsolo com técnicas de fundações, para em seguida e simultaneamente executar a estrutura da torre, de baixo para cima, e a escavação e as lajes do subsolo, gradativamente, de cima para baixo. A primeira tende a gerar menor custo na implantação do subsolo, e em contrapartida ampliar o cronograma global da obra; a segunda tende a gerar maior custo na implantação do subsolo, por exigir procedimentos construtivos mais complexos e por estender no tempo o período de escavações, mas reduz o cronograma global ao sobrepor no tempo as duas etapas. Permite ainda dispensar eventuais travamentos temporários da estrutura de contenção  ao executar o travamento com as próprias lajes, simultaneamente à escavação.

Clique na imagem abaixo para animação:

SUSTENTABILIDADE: ECONOMIA DE RECURSOS NO CICLO DE VIDA DO EDIFÍCIO

A sustentabilidade, tratada em todos os seus diferentes âmbitos – ambiental, social e econômica –, é um princípio central na concepção arquitetônica que aqui se apresenta. Sua consideração deve-se dar tanto na construção do edifício como no seu uso, adotando não apenas a construção sustentável, como o estudo de todo o ciclo de vida do edifício. Sua consideração se deu com a adoção dos princípios de Construção Sustentável preconizados pelos Institutos de Certificação Ambiental e pelo Procel Edifica, certificação federal de eficiência energética nas edificações, o que inclui não só as etapas de projeto e construção, como também o ciclo de vida do edifício. Neste sentido, a opção por uma construção em concreto protendido decorre dos seguintes princípios relacionados à sustentabilidade:

–  a adoção de materiais e técnicas construtivas avançadas, de alto desempenho, reduz o consumo de materiais e amplia a vida útil das estruturas ao reduzir fissurações e patologias;

–  a compatibilidade entre as alturas úteis requeridas para os pavimentos e as exigências legais de afastamentos laterais, proporcionais à altura total da edificação, se equaciona com o uso da protensão, que reduz significativamente as alturas totais dos elementos estruturais e permite a adoção de vãos de maior luz, compatíveis com os usos pretendidos;

–  a simplicidade das geometrias projetadas permite utilizar formas metálicas, totalmente reutilizáveis e recicláveis, evitando o desperdício de materiais no processo de construção;

–  a adoção de uma técnica já amplamente difundida na cultura construtiva local – brasileira e mais especificamente paulista – favorece a inclusão de mão-de-obra qualificada para esta técnica e reduz as chances de erros, que resultariam em patologias futuras para a edificação;

–  a aplicação de um material de grande durabilidade, estabilidade e permanência se coaduna com a finalidade da edificação, que se pretende perene, minimizando os custos de manutenção ao longo de sua vida útil;

–  a capacidade de isolamento do concreto equaciona, já na estrutura, a qualificação ambiental dos principais espaços do edifício, dispensando recursos onerosos para assegurar a estanqueidade dos ambientes – exposições e teatro, especialmente – e minimizando os investimentos em infraestrutura, particularmente em climatização, e seu consumo de energia;

–  a exiguidade do canteiro de obras e a acessibilidade dificultada por sua localização sugerem a adoção de uma técnica que permite o fracionamento e a execução em partes, dispensando grandes equipamentos como guindastes e gruas de grande porte, bem como carretas e caminhões de difícil mobilidade;

–  por fim, pelo exposto, a solução em concreto protendido tende a apresentar menor custo do que outra que apresente construção a seco, o que indica melhor desempenho e maior sustentabilidade também no aspecto econômico.

Completam as ações relativas à qualificação ambiental do edifício a previsão de instalações cuja concepção, dimensionamento e desenho devem conduzir a um uso otimizado dos recursos ao longo da vida do edifício, a saber:

–  previsão de sistema de ar condicionado central de baixo consumo de energia, com controle variável por ambiente, utilizando uma central de água gelada que permite controlar temperatura e umidade em todos os espaços expositivos e ainda climatizar os ambientes de administração, teatro, salas de aula e biblioteca, bem como espaços de apoio;

– previsão de sistemas de reuso de água de chuva e de tratamento de água cinza de esgoto, com reservatório inferior e superior e prumadas independentes para abastecimento de todos os vasos sanitários e utilização na irrigação de jardins;

– previsão de equipamentos para uso racional da água, como torneiras com aeradores e válvulas de descarga tipo dual-flush;

– previsão de controle centralizado e informatizado para iluminação e segurança da edificação, com sistemas inteligentes de iluminação, incluindo, quando pertinente, a priorização da aplicação de luminárias de alto rendimento – fluorescentes corrigidas e LED’s;

– potencialização do uso da luz natural nos espaços de maior permanência –  os dois pavimentos administrativos, salas de aula e biblioteca – através do uso de cores e materiais capazes de refletir a luz e do desenho de amplas aberturas, ora transparentes, ora translúcidas;

– previsão de elevadores com controle informatizado, de modo a assegurar uma otimização nos percursos e reduzir seu consumo de energia;

– a utilização de sistema de aquecimento solar para água,  como determina a legislação municipal, com placas coletoras na cobertura e boiler junto às caixas d’água, para alimentação de vestiários e cozinha;

– criação de um bicicletário, no subsolo, contíguo ao vestiário, favorece a utilização da bicicleta como meio alternativo de transporte para funcionários.


AR CONDICIONADO E VENTILAÇÃO MECÂNICA EFICIENTES

Em se tratando de um edifício de uso variado, o sistema de condicionamento de ar mais indicado é o do tipo expansão indireta através de uma central de água gelada, composta de duas unidades frigorígenas do tipo water  chiller. Para economia de energia o sistema de bombeamento de água será do tipo primário e secundário com variador de freqüência operando nos motores das bombas secundárias. Os chillers serão dotados de compressores do tipo parafuso e deverão ser instalados na cobertura.

Para as áreas de exposição serão previstos sistemas reservas, pois estas áreas têm que estar climatizadas durante o tempo todo. Estão previstos fan-coils horizontais a serem instalados em casas de máquinas sobre os sanitários de cada um dos pavimentos expositivos. Os fan-coils serão dotados de dupla filtragem (filtro grosso + filtro fino) e baterias de reaquecimento e umidificação. Assim, todas as áreas técnicas e de exposições terão um controle rígido de temperatura e umidade e terão o ar filtrado para atender às condições de operação de salas de exposições. Para os andares de escritório serão dimensionados fancoletes tipo cassete. Para estes pavimentos estão previstos sistemas de insuflamento de ar exterior para renovação do ar ambiente.

Para os pavimentos de garagem serão dimensionados sistemas de exaustão mecânica por meio de ventiladores centrífugos. O ar será exaurido por meio de vãos criados com as paredes limítrofes das garagens.  Os ventiladores serão comandados por sensores de CO2 visando a economia de energia.

ATENDIMENTO À LEGISLAÇÃO

O atendimento criterioso a todas as legislações pertinentes – Lei de Zoneamento, Lei e Decreto que regulamentam o Código de Obras e Edificações, Legislação de Prevenção e Combate a Incêndio, Norma de Acessibilidade em edificações, normativas técnico-construtivas para estruturas, instalações prediais e especiais – assegura a plena viabilidade da proposta e sua compatibilidade com as restrições legais. Neste aspecto, destaca-se a possibilidade de eliminar o afastamento frontal em toda a torre devido à expressa previsão no texto legal, o que ampliaria a área global da edificação em até 346m2, aproximando do potencial construtivo máximo com outorga. Essa possibilidade ainda reforçaria sua presença no ambiente urbano ao coincidir o alinhamento do volume principal ao dos edifícios vizinhos. Tratamos esta possibilidade como alternativa a ser buscada no momento da aprovação legal, assegurando, por outro lado, o pleno atendimento às demandas programáticas com a solução ora apresentada, o que constituiria um ganho real para o Instituto, sem prejuízo da concepção arquitetônica original, ampliando as exposições em mais de 150 m2 e o teatro em mais 45 assentos, perfazendo mais de 200 lugares na sua plateia.

Destacam-se, ainda, os seguintes aspectos do atendimento à legislação:

–  as rampas de acesso ao subsolo apresentam declividade de 12% e largura de 3,5 metros, em atendimento à pior situação – dos veículos de carga e descarga – e permitem acumular mais de 4 veículos.

– nos estacionamentos, nenhuma vaga demanda manobra de mais de dois veículos, inclusive para motocicletas, e no nível de carga e descarga assegura-se a altura livre mínima de 3,50 metros, bem como os raios mínimos para manobra do maior veículo, o caminhão.

– o pavimento térreo se localiza a exato um metro acima da cota da calçada, conforme determina a legislação, e apresenta, sob pilotis, na projeção da torre, área fechada limitada a 30% do total apenas para hall de acesso e circulação vertical e sanitários. Para assegurar o pleno atendimento a essa determinação, que permite não incluir o pilotis na área computável, loja e café, fechados, ocupam os afastamentos laterais.

– a área permeável é integralmente ajardinada, se localiza no subsolo para minimizar contenções tendo em vista a existência de subsolo nas edificações vizinhas, e contribui para ambientar a praça coberta de chegada de automóveis, bem como a área de recepção, loja e café ao nível térreo.

– as duas escadas de emergência requeridas para edifícios com mais de 36 metros de altura são do tipo protegidas à prova de fumaça, pressurizadas, com antecâmaras e portas corta-fogo que permanecem abertas durante o uso normal do edifício, e apresentam mecanismo automático que induz seu fechamento em caso de emergência – fecho tipo eletroímã. Embora sobrepostas em corpo único, suas portas de acesso estão distanciadas em mais de 10 metros, como determina a legislação. Ao nível térreo, as larguras de saída se alargam, somando as unidades de passagem dos percursos ascendente e descendente.

CONCLUSÃO

Ce couvent de rude béton est une oeuvre d’amour.

Il ne se parle pas. C’est de l’intérieur qu’il vit.

C’est à l’intérieur que se passe l’essentiel.

Le Corbusier, sobre o Convento de La Tourette, 1961.

Explorar o interior, abrigar a imprevisibilidade da vida, conformar-se como uma infraestrutura aberta à transformação, estabelecer interações com a metrópole, apresentar-se como um discreto e radical artefato na paisagem. Princípios buscados a partir da ideia de que o edifício é um suporte perene que abriga a relevância da instituição, entendida como obra permanentemente em progresso.

Ele não fala. É do interior que ele vive. É no interior que se passa o essencial.

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Veja abaixo o vídeo sobre o projeto:

IMS SP from arquitetos associados on Vimeo.

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Clique na galeria a seguir para a visualização ampliada das imagens, desenhos e diagramas.

Ficha Técnica

Arquitetura

Arquitetos Associados: Alexandre Brasil Garcia, André Luiz Prado, Bruno Santa Cecília, Carlos Alberto Maciel e Paula Zasnicoff Cardoso

Colaboração: Pedro Matos Lodi e Rafael Gil Santos

Estrutura

Bedê Consultoria e Projetos Ltda: Eng. Paulo Rafael Cadaval Bedê

Instalações Prediais

Projeta Projetos e Consultoria Ltda: Eng. Carlos Alberto de Oliveira

Ar Condicionado

Conset: Eng. Marcelo Damião

Acústica

Oppus: Eng. Marco Antônio Vecci e Arq. Rafaela Ferraz

Vídeo 
Direção: Felipe Coutinho
Produção: Casa Digital e Midia Filmes
Câmeras: Sandro Azevedo e Matheus Teixeira
Modelagem 3D: Pedro Lodi e Rafael Gil
Animação 3D: Felipe Coutinho e Gustavo Soares
Pos-produção: Matheus Teixeira, Pedro Magalhaes e Sandro Azevedo
Projeto gráfico: Bruno Martins
Capa e tipografia: Máximo Soalheiro

Imagens

Produção: Casa Digital
Modelagem 3D: Pedro Matos Lodi e Rafael Gil Santos
Produção gráfica: Pedro Mattos Lodi e Rafael Gil Santos

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Agradecemos aos autores pela disponibilização do projeto para publicação.

Veja aqui mais informações sobre o concurso e sobre o projeto vencedor.

6 respostas em “Museu – Instituto Moreira Salles – São Paulo – Arquitetos Associados

  1. Muito interessante, fiquei intrigado com o vídeo, excelente forma de apresentação da proposta, ótimo para apresentar a “leigos”.

    Alguém sabe qual programa foi utilizado para fazer essas animações com as pessoas passando e tudo o mais?

  2. Isso é o que eu chamo de proposta coerente. As perspectivas externas fizeram todo o sentido do mundo depois da explicação do projeto. Parabéns ao escritório! Tomara que todos os projetos sejam apresentados aqui no site no mesmo nível de detalhes desse e do UNA.

Comentários

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