Centro Cultural Amizade, em Guiné-Bissau: cooperação internacional e mobilização social.

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Centro Cultural Amizade São Paulo, em Guiné-Bissau. Foto: Divulgação – IAB.

texto de Fabiano Sobreira (*)

Em 2009 um grupo de jovens da Comunidade São Paulo, em Bissau, capital de Guiné-Bissau, enviou uma carta à Fundação Gol de Letra solicitando ajuda para construir uma escola. Surgiu daí a cooperação internacional que teve a participação de várias instituições dos dois países, entre elas do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Distrito Federal (IAB-DF), responsável pelo concurso para a escolha do projeto, promovido em 2010 (Concurso Nacional de Arquitetura – Uma Escola para Guiné-Bissau).

Coordenei o concurso ao lado do arquiteto Thiago de Andrade, em uma experiência até hoje única: um concurso totalmente em meio eletrônico, inclusive o processo de julgamento, realizado à distância, com a participação de importantes nomes da arquitetura da América Latina: os arquitetos brasileiros Alvaro Puntoni, Francisco de Paiva Fanucci, Jaime Gonçalves Almeida , Marcelo Morettin e Sylvio de Podestá; o arquiteto colombiano Daniel Bonilla e o arquiteto paraguaio Solano Benitez. Participaram 83 equipes e o projeto vencedor é de autoria dos arquitetos Bruno Giugliani, Cintia Gusson Etges e Karen Bammann, de Porto Alegre.

O sucesso da cooperação internacional e da mobilização social foi ratificado em novembro de 2014, com a inauguração do Centro Cultural Amizade São Paulo, em Bissau. Apesar das dificuldades políticas e de um Golpe de Estado em 2012, o centro foi construído, por meio de mutirão (como previsto no concurso) e inaugurado. Hoje abriga diversas atividades culturais e sociais da comunidade.

A iniciativa resultou da parceria Brasil-UNESCO para a Promoção da Cooperação Sul-Sul, como parte do projeto “Jovens Lideranças para a multiplicação de boas práticas socioeducativas”. Fizeram parte da cooperação internacional, além do IAB-DF, o Instituto Elos, a Fundação Gol de Letra e o Ministério de Educação e Cultura. Por parte do país parceiro participaram o Ministério da Educação de Guiné Bissau e a Associação Amizade (ONG). O objetivo da parceria foi a identificação e o fortalecimento de lideranças jovens da localidade e ligadas à Associação Amizade do Bairro de São Paulo em Bissau, para torná-los multiplicadores de práticas sócio-educativas bem sucedidas e desenvolvidas pela Fundação Gol de Letra (Disseminação da Prática em Educação Integral) e UNESCO Brasil (Programa Escola Aberta), a fim de favorecer a educação integral, comunitária e o desenvolvimento local. Coube ao IAB-DF, a partir de Termo de Cooperação firmado com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério de Relações Exteriores, promover e financiar o concurso de arquitetura (inclusive o pagamento do contrato executivo).

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Centro Cultural Amizade São Paulo, em Guiné-Bissau. Foto: Divulgação – IAB.

Imagem do projeto vencedor do concurso “Uma escola para guiné-bissau”.

Ao observar as fotos do Centro Cultural inaugurado e rever as imagens do projeto vencedor, é possível constatar a materialização dos princípios projetuais traçados pelos autores, em resposta aos desafios estabelecidos no termo de referência do concurso e os desejos da comunidade. As imagens do centro em plena atividade expressam a simplicidade, o acolhimento e a integração com o meio, sugeridos no projeto original, como registrado pelos autores, na ocasião do concurso:

“As necessidades de conforto foram solucionadas tendo em vista os recursos naturais renováveis disponíveis na região, valendo-se ao máximo de sistemas passíveis a uma paisagem rural”. (…) O conjunto abraça uma praça central, um grande vazio que tem o poder de orientar e agregar identidade à escola. (…)A grande função que norteia o projeto deve ser social. Proporcionar espaços ativos para o desenvolvimento das pessoas. Estabelecer dinamismo na relação das pessoas com as coisas ao redor delas. (…) Essa humanidade intencional na distribuição das funções tem como objetivo maior incluir a comunidade, estabelecer as bases para o desenvolvimento humano e social.”

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Centro Cultural Amizade São Paulo, em Bissau. Foto: Divulgação – IAB.

Um dos principais méritos do projeto foi a utilização de materiais e métodos construtivos amplamente difundidos na comunidade e a criação de ambientes sociais, mais do que um conjunto de edificações.

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Visita dos autores do projeto ao canteiro de obras. Fonte: IAB.

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Visita dos autores do projeto ao canteiro de obras. Fonte: IAB.

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Visita dos autores do projeto ao canteiro de obras. Fonte: IAB.

O Centro Educacional Amizade São Paulo foi executado por meio de mutirão. Para a execução do projeto, os jovens da comunidade receberam formação na área de construção civil, bioconstrução e empreendedorismo social, ações coordenadas pelo Instituto Elos. O centro é composto por sala multiuso, dois campos poliesportivos, cantina, cinco bongolôs para práticas recreativas e culturais e um poço de água equipado com painel solar. Os moradores da comunidade são os principais beneficiados com o centro e no processo de capacitação comunitária foram trabalhadas metodologias de integração da educação formal e não formal, de integração escola-bairro e de gestão compartilhada entre governo e comunidade.

Este projeto é mais um exemplo da importância do concurso de arquitetura não apenas como modalidade de contratação pública, mas como instrumento democrático de reflexão sobre a qualidade dos espaços e equipamentos públicos e sobre sua apropriação pela sociedade, nas mais diversas escalas e contextos geográficos. Inclusive (e especialmente) quando se trata de uma pequena escola, construída por meio de mutirão, em um bairro de Bissau, que guarda tantas semelhanças com os bairros mais simples dos subúrbios de nossas cidades. Que nos sirva de inspiração.

(*) Fabiano Sobreira é arquiteto e urbanista, editor do portal concursosdeprojeto.org.

4 respostas em “Centro Cultural Amizade, em Guiné-Bissau: cooperação internacional e mobilização social.

  1. Esse é um valioso exemplo de que os concursos públicos de arquitetura são importantes não apenas para os grandes edifícios e obras excepcionais, mas também, e talvez até mais, para pequenas construções em contextos de carência social.
    Parabéns Fabiano!
    Um abraço
    André

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