Esplanada dos Ministérios, a grande ‘praça da soberania’, como idealizada por Lúcio Costa e consolidada no imaginário coletivo.

niemeyer-02Oscar Niemeyer anunciou hoje, em carta publicada no Correio Braziliense (e transcrita pela revista mdc), que desistiu do polêmico projeto da Praça da Soberania, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília:

“…chegamos à conclusão de que o governador do Distrito Federal não teria, como nos comunicou, condições para executar aquele projeto que tanto o empolgava.

O que fazer? O único pensamento que nos ocorria era, compreensivos, agradecer o apoio que o governador, com inegável interesse, nos dera e pôr de lado – provisoriamente – a idéia que muito nos entusiasmara. O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada.”

A declaração de Niemeyer parece encerrar a maratona de debates públicos que se iniciaram no último dia 10 de janeiro, quando a Folha de São Paulo anunciou a apresentação do projeto pelo arquiteto ao Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. O projeto previa um estacionamento subterrâneo para três mil automóveis, um edifício curvo abrigando o Memorial dos Presidentes, oposto a uma torre de mais de cem metros de altura – correspondente ao Monumento ao Cinquentenário. Naquele momento, o Secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, – declarou, a respeito do projeto: “Monumental!” . O governador Arruda assegurou: “Vamos fazer!”.

Esse foi o início de uma série de manifestações, de arquitetos, professores, pesquisadores, políticos, moradores da cidade. Foi inclusive instaurado um inquérito civil no Ministério Público para apurar a legalidade e regularidade do projeto de construção da Praça da Soberania.

Entre os que defenderam o projeto, os argumentos destacavam principalmente a genialidade de Oscar Niemeyer:

“O projeto de uma praça para Brasília na Esplanada dos Ministérios entre os dois lados do Setor Cultural é a nova surpresa que Oscar Niemeyer nos oferece. No vocabulário arquitetônico por ele criado. Vocabulário de precioso refinamento que, ao longo do tempo, se vem tornando cada vez mais sintético e denso, a praça da Soberania é exemplo extraordinário.” (Glauco Campelo, em 24.jan.2009)

“Oscar é uma das grandes personalidades do nosso tempo. Sua incrível capacidade de criação não se apoia em teorias nem na estética vigente, mas na intuição, na lógica da natureza, no instinto das mentes privilegiadas dos gênios. Por isso, sua obra é capaz de emocionar qualquer ser humano, independentemente de formação intelectual ou categoria social.(…) Vemos no projeto dessa praça uma composição ousada e singela de beleza indiscutível, em que predomina seu monumento central triangular ancorado no solo e com sua aresta superior levemente curva, que lhe confere uma surpreendente elegância e leveza. Constitui, sem dúvida, mais uma obra-prima de Oscar que se incorpora ao acervo cultural do nosso país.” (Lelé, em 27.jan.2009)

O principal argumento contra o projeto se baseia na interferência sobre o projeto original da Esplanada e a obstrução visual causada pelo novo monumento à Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional, vistos a partir da Rodoviária, símbolos maiores da Capital. Além disso, destacam-se problemas recorrentes em diversos projetos realizados por Niemeyer referentes à aridez e monumentalidade desproposital (Conjunto Cultural da República e Memorial da América Latina, por exemplo).  Destacam-se, entre outros, os seguintes comentários:

“Um monumento de 100 metros de altura, como o proposto pelo arquiteto, mais um edifício destinado a ser um Memorial dos Ex-Presidentes, certamente quebrarão radicalmente a perspectiva idealizada originalmente. Ao mesmo tempo, é duvidoso pretender colocar, simbolicamente, a “soberania” acima do “povo”. (…) “O que se espera de Oscar Niemeyer e dos governantes de Brasília, como atores importantes para a preservação da cidade, é que façam propostas que não a desfigurem e que, ao contrário, contribuam para a defesa e preservação do seu tombamento. É compreensível o entusiasmo pela proposta arquitetônica que bem pode ser construída em outra área, mas, presentes como a Praça da Soberania são verdadeiros cavalos de Tróia que abrem caminho para uma triste derrota da história de Brasília.” (Gustavo Lins Ribeiro, 28.jan.2009)

“Mais um projeto apoiado em tapete de concreto, mais uma forma forte e reconhecível, mais uma obra que inventa um cenário monumental, mais uma perspectiva forçada, mais um conjunto de construções de formas puras (certamente sem detalhes e filigranas) sob a ação implacável do sol de Brasília.” (Andrey Rosenthal Schlee, 04.fev.2009)

A discussão em torno da Praça da Soberania traz à tona outros temas, como a questão da utilização do recurso da Notoriedade e Genialidade (leia artigo publicado neste portal) como artifício para a fragilização do rito processual na produção do espaço público. Enfim, passados 24 dias desde o anúncio do projeto, o que se observa é que há muito tempo que não se vê uma cidade (não apenas os arquitetos) reagir de forma tão intensa a um projeto. Não é sempre que a Arquitetura ocupa capas de jornal, e que se torna assunto diário entre taxistas, comerciantes, estudantes, cientistas sociais… É bom ver a Arquitetura ser discutida como objeto de interesse público.

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Para acompanhar com detalhe todo o histórico de opiniões e debates em torno da polêmica sobre a Praça da Soberania, acesse a mdc revista de arquitetura e urbanismo.